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Editorial

Trilhos do passado e do futuro

30 de Abril de 2026 às 19:55
Cruzeiro do Sul [email protected]
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A desativação do transporte ferroviário de passageiros no Estado de São Paulo foi gradual, entre os anos 1990 e 2000. Quem viveu nesses anos tem ainda a lembrança de ter viajado de trem ou pelo menos de conhecer alguém que costumava fazer isso. A memória ferroviária está presente nas pessoas mais velhas e nos prédios e estruturas que permanecem, embora algumas em mau estado de conservação, como se vê em Sorocaba, que se tornou famosa em todo o País pela Estrada de Ferro Sorocabana (EFS), inaugurada em 1875.

Atualmente, os trilhos da velha EFS estão deteriorados pela falta de uso. Os trens não circulam mais na chamada Malha Oeste, sob a concessão da empresa Rumo, nem mesmo os de transporte de carga. Pontilhões, que servem de obstáculos para caminhões mais altos no trânsito diário da cidade, seguem sem uma função eminentemente ferroviária.

A história da ferrovia no Brasil começou a ser construída em meados do século 19, conforme os registros históricos, pela necessidade de escoar a produção agrícola, principalmente a de café. A inauguração oficial ocorreu em 1854, da linha conhecida como Estrada de Fero Mauá, de apenas 14 quilômetros, que ligava o Porto de Estrela, na Baía de Guanabara, ao pé da Serra de Petrópolis, no Rio de Janeiro. A ferrovia foi desativa depois.

Os trilhos ajudaram a integrar o território nacional, reduzindo as distâncias e levando povoamentos a regiões antes pouco habitadas. Também serviu para expandir a economia brasileira, levando ao avanço das exportações, transportando mercadorias do interior para os portos. O País, assim, seguia os passos das grandes nações do mundo, que investiam na ferrovia como fator de desenvolvimento e de mobilidade eficiente em tempos em que os carros e caminhões ainda iriam surgir, mais adiante. As estações ferroviárias eram o ponto de passagem de todos, os mais ricos e os mais pobres. Cavalheiros e damas se vestiam com elegância e as despedidas e as chegadas eram um evento especial na vida das pessoas.

Diante de todo esse passado memorável e do período de desvalorização do transporte ferroviário, por décadas, pelo menos no Estado de São Paulo, as novas linhas do Trem Intercidades (TIC) __ de Sorocaba a São Paulo e de Campinas a São Paulo __ mostram que o futuro passa pelos trilhos. Os planos são ambiciosos. Há ainda estudos de linhas entre Sorocaba e Campinas e de Sorocaba a Bauru, como o Cruzeiro do Sul noticiou recentemente.

O TIC Eixo Oeste (Sorocaba-São Paulo) tem um investimento estimado em R$ 12 bilhões e previsão de operação para 2031. O trem de passageiros pretende reduzir o tempo de viagem entre as duas cidades para aproximadamente 60 minutos. A velocidade máxima deve ser de 140 km/h. A ligação tem o potencial de transformar a dinâmica socioeconômica entre a Região Metropolitana de Sorocaba (RMS) e a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), analisam especialistas em mobilidade.

De maneira semelhante ao passado, os novos trens de passageiros serão importantes para o desenvolvimento regional. Os principais aspectos são a integração, valorização imobiliária a partir da revitalização do entorno de estações, melhora na competitividade e atração de investimentos para cidades como Itapevi, São Roque e Mairinque, alívio no trânsito nas rodovias Castello Branco (SP-280) e Raposo Tavares (SP-270), e consequente redução na emissão de poluentes. O tempo menor de viagem entre Sorocaba e São Paulo vai facilitar que moradores de ambas as cidades se desloquem com a finalidade de trabalho, estudo e lazer. O valor da passagem terá de ser compatível, não ultrapassando muito o transporte rodoviário por ônibus.

A antiga estação da EFS de Sorocaba deve ser restaurada e adaptada às exigências atuais para receber o novo trem de passageiros, conforme previsto no projeto do TIC Eixo Oeste. Será uma solução de uso para preservar o prédio histórico, por tantos anos desocupado e danificado pela ação do tempo e por atos de vandalismo. Espera-se que seja uma nova página para o progresso e o desenvolvimento de Sorocaba e região.

No entanto, é preciso ressaltar, a implantação do TIC traz a necessidade de planejamento e fiscalização adequados, no sentido de evitar problemas comuns, como a ocupação imobiliária descontrolada, falta de infraestrutura complementar no entorno das estações e riscos ambientais. Essa coordenação precisa ser feita de maneira ampla e antecipadamente, se possível com a participação dos municípios e órgãos ambientais e de defesa do patrimônio histórico.