Editorial
Dilemas ambientais
A evolução tecnológica e o refinamento de conceitos têm permitido à sociedade superar problemas que antes pareciam insolúveis. Onde imperava o “impossível”, hoje a inovação e as mudanças de comportamento ditam o cotidiano. No Brasil e no mundo, as questões ambientais — quando associadas a condições econômicas favoráveis — revelam que soluções sustentáveis são viáveis.
No entanto, persistem entraves que impedem que tecnologias e sistemas de gestão se desdobrem plenamente. O desafio atual é garantir que a preservação dos recursos naturais e a qualidade de vida caminhem juntas. Recentemente, este jornal trouxe dois temas emblemáticos sob essa ótica: a expansão da energia fotovoltaica residencial e os desafios da reciclagem.
Sorocaba alcançou a marca de 9 mil pontos de geração de energia solar, um crescimento robusto na micro e minigeração distribuída, conforme apurou a reportagem. Segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o município conta agora com 9.053 unidades. Esta transição é vital: ao gerar energia nos telhados evita-se a queima de combustíveis fósseis em termelétricas, reduzindo a poluição atmosférica e preservando estoques de gás natural e diesel que podem ser destinados a outras finalidades.
Além do ganho ambiental direto, a energia fotovoltaica atenua a dependência de grandes hidrelétricas, cujas obras alteram cursos de rios, impactam a fauna e frequentemente exigem o deslocamento de populações. São empreendimentos de alto custo fiscal e ambiental, como vimos na história de Itaipu e de outras grandes usinas na região Norte, como Belo Monte.
Contudo, o sucesso traz novos dilemas. O volume de conexões cresceu a ponto de exigir uma análise da rede elétrica: o excesso de carga durante o dia pode comprometer o sistema se a infraestrutura local não estiver adequada. Para evitar apagões por sobrecarga, o monitoramento nacional tem recorrido, por vezes, à desconexão temporária de usinas da rede.
Para ser ter uma dimensão do crescimento, o volume de conexões de energia solar de micro e minigeração distribuída aumentou consideravelmente nos últimos anos em Sorocaba. Em 2025, foram registradas mais de 2,3 mil novas instalações. Em 2026, até o início de abril, cerca de 395 unidades já haviam sido conectadas.
O que é visto como vantagem econômica e diversificação de fontes energéticas indica um problema para o futuro. A tecnologia e profissionais que se dedicam a ela, mais uma vez, sinalizam alternativa para isso, que já vem sendo usada: as baterias residenciais para sistemas de energia solar. O custo aumenta bastante, representando o componente de maior investimento. Novos materiais vêm sendo pesquisados para reduzir os valores das baterias.
Há ainda experiências com baterias de veículos elétricos desativados, ou que perderam a capacidade de armazenamento de energia para a mobilidade, mas servem ainda para guardar a energia necessária a uma residência à noite, por exemplo. Baterias de veículos elétricos têm, geralmente, grande durabilidade, e antes da reciclagem podem ser úteis ainda paradas, para guardar a energia que seria desperdiçada durante o dia.
Outra questão ambiental igualmente importante é a coleta seletiva e a reciclagem de resíduos, tema também tratado nas páginas do jornal. A baixa adesão à separação nas residências e o preço baixo pago a recicladores fazem esses materiais irem para mesma destinação do lixo comum, os aterros sanitários, exigindo mais espaço e esgotando sua vida útil precocemente.
Em paralelo, a gestão de resíduos sólidos enfrenta barreiras mais culturais e econômicas do que tecnológicas. A baixa adesão à coleta seletiva e a desvalorização dos recicláveis empurram materiais valiosos para os aterros sanitários.
Dados da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema) revelam um cenário preocupante: 42% das pessoas não separam o lixo por falta de acesso à coleta; 21% admitem falta de disposição e 18% declaram não saber como fazê-lo. A queda no valor dos materiais recicláveis também interfere diretamente. Com menor retorno financeiro, cooperativas enfrentam dificuldades, com a perda de cooperados e a capacidade reduzida de reciclagem de resíduos. O motivo da queda no preço dos recicláveis é o custo mais baixo na matéria virgem, como papelão e plástico. Apenas metais, como o alumínio, mantêm uma rentabilidade constante.
Assim como na fonte solar de energia elétrica, a reciclagem esbarra em problemas que impedem ou dificultam sua expansão. Nas duas, é preciso pensar e propor soluções, tecnológicas ou de gestão, o mais rápido possível, a fim de que as gerações futuras não vivam num planeta em colapso.