Editorial
A caneta e a prioridade
A declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, feita sexta-feira em Sorocaba, enquanto inaugurava o novo câmpus do Instituto Federal na cidade, parte de uma constatação que, à primeira vista, parece irrefutável: o Brasil gasta mais com quem está preso do que com quem estuda. O problema, no entanto, não está no diagnóstico e sim no uso político de uma realidade que o próprio governo tem poder para transformar, mas insiste em apenas narrar, como se estivesse distante das decisões que moldam esse cenário.
Disse o presidente Lula: “Um prisioneiro, no presídio federal de segurança máxima, custa R$ 40 mil por ano; em outras cadeias, R$ 35 mil por ano, um bandido. Um estudante no Instituto Federal custa R$ 16 mil por ano, ou seja, metade do que custa um bandido”, disse o presidente.
Os números ajudam a iluminar o debate e também a expor suas contradições. Dados recentes indicam que um preso em penitenciária federal de segurança máxima pode custar, em média, cerca de R$ 40 mil por mês (presidente disse que esse valor seria anual), o que significa algo próximo de R$ 480 mil por ano. Trata-se de um valor elevado, que reflete o rigor operacional dessas unidades, que inclui custos elevados com segurança máxima, folha de pagamento de servidores e manutenção de infraestrutura tecnológica nas cinco unidades federais. No total, o sistema penitenciário federal consome centenas de milhões de reais anualmente, com previsão orçamentária próxima de R$ 600 milhões para sua manutenção.
Do outro lado, a educação federal — que inclui universidades e institutos federais — conta com um orçamento que supera a casa dos R$ 180 bilhões em 2026, considerando o conjunto das políticas educacionais da União. Ainda assim, o que se vê na prática é um sistema pressionado, com cortes recorrentes ao longo dos anos, limitações operacionais e dificuldade para expandir vagas, manter programas e garantir qualidade. E o presidente falou corretamente que um aluno do Instituto Federal custa R$ 16 mil por ano. Nas universidades federais, o investimento por aluno é um pouco maior, podendo chegar a 70 mil por ano.
É aqui que o discurso presidencial começa a perder consistência. Ao comparar o custo de um preso com o de um estudante, o presidente constrói uma oposição que, embora impactante, é incompleta — e, em certa medida, conveniente. Não se trata de escolher entre prender ou educar. Trata-se de definir prioridades dentro de um orçamento público que é elaborado, encaminhado e executado sob a liderança direta do próprio governo federal.
E nesse ponto não há espaço para retórica: a caneta está nas mãos do presidente.
Se há convicção de que a educação é o caminho mais eficaz para reduzir a criminalidade e ampliar oportunidades, então a consequência lógica seria ampliar, de forma consistente e estratégica, os investimentos no setor. Isso envolve não apenas a construção de novos campi, mas também políticas de permanência estudantil, valorização de professores, modernização da infraestrutura e ampliação do acesso, especialmente para os mais vulneráveis.
O Brasil, afinal, não é um país pobre em arrecadação. Ao contrário, figura entre aqueles com maior carga tributária entre economias emergentes. O problema central não é a escassez de recursos, mas a sua má alocação. Entre despesas engessadas, ineficiências administrativas e escândalos recorrentes de corrupção, bilhões de reais deixam de cumprir sua função social e acabam alimentando um ciclo de desperdício que penaliza justamente áreas essenciais como a educação.
Enquanto isso, os sinais sociais são evidentes e preocupantes. O País enfrenta aumento da evasão escolar, desinteresse crescente entre jovens e adultos pelos estudos e, simultaneamente, uma população carcerária em expansão. Trata-se de uma equação previsível: onde falta investimento consistente em educação, sobram consequências sociais que, mais tarde, exigirão gastos ainda maiores em segurança pública e sistema prisional.
O presidente acerta ao chamar atenção para o custo elevado do encarceramento. Mas se equivoca ao tratar essa realidade como se fosse uma distorção externa ao seu alcance. Não é. Trata-se, em grande medida, de um reflexo direto de escolhas de governo que poderiam ser revistas com vontade política e liderança.
Se o governo federal decidir, de fato, colocar a educação no centro da estratégia nacional, é razoável supor que estados e municípios seguirão esse direcionamento. O exemplo vem de cima. Mas isso exige mais do que discursos de ocasião. Exige coragem para rever prioridades, enfrentar interesses estabelecidos e garantir que o dinheiro público seja aplicado com eficiência e transparência.
No fim das contas, a comparação feita pelo presidente pode até gerar impacto retórico, mas pouco contribui para a solução do problema. O verdadeiro debate não está no custo de um preso ou de um estudante. Está na escolha entre administrar consequências ou investir em causas. E essa escolha, inevitavelmente, passa por quem governa e por como decide usar a caneta que tem nas mãos.