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Editorial

Endividamento recorde

07 de Abril de 2026 às 21:30
Cruzeiro do Sul [email protected]
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O retrato mais recente do endividamento das famílias brasileiras não é apenas um indicador econômico. É, sobretudo, um sintoma social de um país que perdeu o controle sobre sua própria estabilidade. Ao atingir o recorde de 80,4% em março, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o endividamento revela uma realidade incômoda: o crédito deixou de ser instrumento de planejamento e passou a ser mecanismo de sobrevivência, como mostra a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor.

Não se trata de um fenômeno isolado ou conjuntural. O dado se soma a uma sequência de sinais preocupantes: inflação persistente, custos logísticos em alta, combustíveis pressionando preços e juros que, embora em trajetória de queda, ainda sufocam o consumo. O resultado é previsível: famílias comprometendo renda para cobrir despesas básicas, enquanto o alívio prometido permanece sempre no horizonte, nunca no presente.

A estabilização da inadimplência em 29,6% pode, à primeira vista, sugerir algum controle. Mas é uma leitura superficial. Quando quase um terço das famílias já não consegue honrar seus compromissos, o problema não é a estabilidade e sim o patamar estruturalmente elevado. Em outras palavras, normalizou-se o inadimplemento em larga escala.

Mais revelador ainda é o avanço do endividamento entre as faixas de renda mais altas. Esse movimento desmonta a narrativa de que a crise está restrita aos mais pobres. Quando até mesmo famílias com maior capacidade financeira recorrem ao crédito de forma crescente, evidencia-se um desequilíbrio sistêmico. A deterioração do poder de compra já não distingue classes com a mesma clareza de antes.

O pano de fundo desse cenário é uma condução econômica que oscila entre o improviso e o populismo. O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi marcado por promessas grandiosas e slogans de fácil apelo, símbolos de prosperidade que, na prática, não se materializaram. A chamada “picanha” tornou-se metáfora involuntária de um projeto que prometeu mais do que poderia entregar.

Enquanto isso, a realidade impõe sua própria narrativa. A inflação, ainda que sob controle formal, continua corroendo o cotidiano. O aumento dos combustíveis, citado pela própria CNC, reverbera em toda a cadeia produtiva, elevando preços e reduzindo margens. O consumidor, pressionado, recorre ao crédito; o crédito, caro, aprofunda o endividamento; e o ciclo se retroalimenta.

A política econômica, nesse contexto, parece mais reativa do que estratégica. Medidas pontuais, muitas vezes com viés eleitoreiro, tentam mitigar efeitos imediatos sem atacar causas estruturais. Programas de renegociação de dívidas, por exemplo, podem aliviar momentaneamente, mas não resolvem o problema de origem: a perda contínua de renda real e a ausência de um ambiente econômico previsível.

Em ano eleitoral, o risco é evidente. A tentação de ampliar gastos, flexibilizar regras fiscais e estimular artificialmente o consumo pode produzir ganhos políticos de curto prazo, mas tende a agravar desequilíbrios no médio prazo. A história recente do Brasil já demonstrou que atalhos econômicos cobram seu preço e ele costuma recair, invariavelmente, sobre o cidadão comum.

A pergunta que emerge, portanto, é direta: quem paga a conta? Os dados da CNC oferecem uma resposta inequívoca. É o brasileiro médio, que vê sua renda comprimida, seu orçamento comprometido e suas perspectivas limitadas. É ele quem financia, com juros altos e inflação persistente, uma política econômica que ainda não encontrou rumo consistente.

O Brasil não precisa de mais promessas e sim de previsibilidade, responsabilidade fiscal e compromisso com reformas que ampliem a produtividade e o poder de compra de forma sustentável. Sem isso, o recorde de hoje será apenas o prelúdio de números ainda mais preocupantes amanhã.

E, enquanto o discurso insiste em vender esperança, os indicadores seguem contando outra história: endividamento crescente, renda insuficiente e um futuro que, para muitos, parece cada vez mais distante.