Editorial
Inflação estruturada
A inflação dos alimentos no Brasil deixou de ser um fenômeno circunstancial para se afirmar como um sintoma estrutural de um modelo econômico que, embora frequentemente apresentado sob a retórica da inclusão social, produz efeitos regressivos e persistentes sobre a população, principalmente a mais vulnerável. A recente indicação de aceleração inflacionária apenas reforça um diagnóstico incômodo: o Brasil convive com um sistema que encarece a base da subsistência enquanto preserva — e, em alguns aspectos, aprofunda — distorções históricas.
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva insiste em tratar a inflação como um fenômeno episódico, atribuindo sua dinâmica a fatores externos ou a choques temporários. No entanto, os dados acumulados ao longo de quase duas décadas desmontam essa narrativa. O custo da alimentação subiu mais de 300% no período, superando com folga a inflação geral. Não se trata de uma oscilação passageira, mas de uma tendência consolidada, marcada por resistência à queda de preços mesmo após momentos de alívio.
Essa persistência revela uma engrenagem mais profunda. O Brasil consolidou-se como potência agroexportadora, ampliando exponencialmente sua participação no mercado global de commodities. No entanto, esse sucesso externo cobra um preço interno elevado. Ao priorizar culturas voltadas à exportação — como soja, milho e cana-de-açúcar —, o País reduz o espaço produtivo dedicado a alimentos essenciais ao consumo doméstico. O resultado é uma contradição gritante: enquanto alimenta o mundo, encarece o prato do próprio cidadão.
A política econômica vigente não apenas tolera esse desequilíbrio como o reforça. Ao privilegiar ganhos em moeda forte e a inserção internacional baseada em produtos primários, o governo negligencia a construção de mecanismos eficazes de proteção ao mercado interno. Não há, na prática, uma estratégia robusta de abastecimento que assegure previsibilidade e moderação de preços para itens básicos. Iniciativas pontuais, como ampliação de crédito ou programas de alívio ao consumo, atuam apenas na superfície do problema, sem enfrentar suas causas estruturais.
Mais grave ainda é o efeito social dessa distorção. A inflação alimentar no Brasil não atinge todos os produtos de forma homogênea. Alimentos in natura — frutas, legumes, carnes — tornaram-se progressivamente mais caros, enquanto produtos ultraprocessados apresentam maior estabilidade relativa de preços. Essa dinâmica induz uma mudança silenciosa, porém profunda, nos padrões de consumo, empurrando as camadas mais pobres para dietas menos saudáveis. Trata-se de uma inflação que não apenas corrói o poder de compra, mas compromete a qualidade de vida e amplia desigualdades sanitárias.
A dependência de insumos agrícolas controlados por grandes conglomerados internacionais agrava ainda mais o cenário. Fertilizantes, defensivos e maquinário têm seus preços pressionados por dinâmicas externas, criando um ciclo vicioso que eleva custos de produção e, inevitavelmente, se traduz em preços mais altos ao consumidor final. Mesmo o pequeno produtor, voltado ao mercado interno, torna-se refém dessa lógica, sem instrumentos suficientes para absorver os impactos.
A concentração da cadeia produtiva e industrial completa esse quadro de fragilidade estrutural. Poucas empresas dominam segmentos estratégicos, reduzindo a concorrência e ampliando o poder de definição de preços. Soma-se a isso o fenômeno da chamada “inflação invisível”, em que produtos mantêm valores nominais enquanto perdem qualidade, mascarando o real aumento do custo de vida.
Diante desse cenário, torna-se evidente que a inflação dos alimentos no Brasil não é um acidente, mas uma escolha ou, no mínimo, a consequência direta de escolhas reiteradas ao longo do tempo. A ausência de políticas estruturantes, como fortalecimento de estoques reguladores, incentivo à produção diversificada e reequilíbrio entre exportação e consumo interno, revela uma lacuna estratégica incompatível com a retórica de justiça social.
Se o objetivo é, de fato, promover inclusão e reduzir desigualdades, não basta ampliar o acesso ao crédito ou criar mecanismos paliativos de alívio financeiro. É preciso enfrentar o núcleo do problema: um modelo econômico que transforma o básico em luxo e subordina o abastecimento interno às flutuações do mercado global. Enquanto essa contradição persistir, o brasileiro continuará pagando caro pela comida pela ausência de uma política econômica coerente com as necessidades reais do País.