Editorial
A opinião pública e o STF
A erosão da confiança nas instituições não ocorre por acaso mas sempre é fruto de escolhas, omissões e, sobretudo, de sinais equivocados emitidos por aqueles que deveriam zelar pela estabilidade democrática. O mais recente levantamento da AtlasIntel, divulgado ontem, escancara um dado alarmante: 60% dos brasileiros afirmam não confiar no Supremo Tribunal Federal (STF). Trata-se de um índice que evidencia uma crise de credibilidade sem precedentes na mais alta instância do Judiciário brasileiro.
O pano de fundo desse desgaste é explosivo. A investigação conduzida pela Polícia Federal, no âmbito da chamada Operação Compliance Zero, trouxe à tona suspeitas envolvendo o Banco Master e conexões que, ainda que indiretas, alcançariam integrantes da própria Corte. O nome do banqueiro Daniel Vorcaro surge como elo central de um enredo que mistura poder econômico e influência institucional, combinação historicamente tóxica para qualquer democracia.
Não se trata, aqui, de antecipar julgamentos ou de condenar sem provas. O problema é mais profundo: é a percepção pública de promiscuidade entre esferas que deveriam permanecer rigorosamente apartadas. A Justiça, para ser respeitada, não precisa apenas ser imparcial, precisa parecer imparcial. Quando essa aparência se desfaz, abre-se espaço para a desconfiança generalizada, terreno fértil para o descrédito institucional e, em última instância, para a instabilidade política.
O STF, ao longo dos últimos anos, acumulou protagonismo em temas sensíveis, muitas vezes ocupando espaços deixados por outros Poderes. Esse ativismo, embora por vezes necessário, cobra um preço: a exposição constante amplia o escrutínio público e torna qualquer suspeita ainda mais danosa. No caso atual, o silêncio, a demora em esclarecer fatos ou a adoção de respostas insuficientes apenas reforçam a narrativa de que há algo a esconder.
É preciso reconhecer que a autoridade moral é um dos pilares da democracia. Sem ele, decisões judiciais passam a ser vistas não como expressão da lei, mas como fruto de interesses, pressões ou conveniências. E quando isso ocorre, perde-se mais do que a confiança em um tribunal: perde-se a própria noção de justiça como valor universal.
A crise revelada pelos números da AtlasIntel não pode ser tratada como mera oscilação de opinião pública. Trata-se de um alerta severo. Cabe ao STF reagir com transparência radical, abrir-se ao escrutínio legítimo e, se necessário, promover correções internas que restabeleçam a confiança perdida. A omissão, neste momento, não é uma opção.
O Brasil já convive com fragilidades institucionais suficientes. Permitir que a mais alta Corte do País mergulhe em uma crise de legitimidade é um risco que não pode ser naturalizado. A confiança, uma vez rompida, não se recompõe com discursos. Exige ações concretas, coragem institucional e compromisso inequívoco com a ética pública. Sem isso, o que está em jogo deixa de ser apenas a imagem do Tribunal e passa a ser a própria solidez do Estado de Direito.
A deterioração da confiança não se explica apenas pelas suspeitas recentes, mas também por uma postura cada vez mais fechada e autorreferente adotada por membros do STF. Em vez de reconhecer a gravidade do momento e se submeter ao necessário escrutínio público, o que se observa, com frequência, é uma reação corporativista: ministros que se defendem mutuamente, trocam elogios públicos e reafirmam, entre si, a própria legitimidade, como se isso bastasse para convencer uma sociedade cada vez mais cética.
Ao mesmo tempo, cresce a percepção de que críticas externas, sobretudo quando vindas da imprensa ou de setores da sociedade civil, são recebidas não como parte natural do debate democrático, mas como afrontas a serem contidas. Em diversos episódios recentes, manifestações críticas foram tratadas com rigor desproporcional, alimentando a sensação de que há dois pesos e duas medidas: complacência interna e intolerância externa.
Esse tipo de comportamento é especialmente nocivo em uma democracia. Instituições fortes não são aquelas que se blindam contra críticas, mas as que se fortalecem a partir delas.