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Editorial

Como fica o dever da apuração?

02 de Março de 2026 às 21:00
Cruzeiro do Sul [email protected]
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A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito criada para apurar irregularidades no INSS nasceu com uma missão inequívoca: lançar luz sobre suspeitas que atingem um dos órgãos mais sensíveis da estrutura estatal brasileira. O que se viu, entretanto, nos últimos dias, foi a degradação do debate público a um nível constrangedor. A aprovação da convocação de Lulinha, filho do presidente Lula, para depor na CPMI desencadeou uma sequência de episódios que culminaram em bate-bocas generalizados e até agressões físicas entre parlamentares. O espetáculo da desordem substituiu o dever da apuração.

Não se trata de detalhe folclórico. Quando membros do Congresso trocam empurrões diante das câmeras, a mensagem transmitida à sociedade é devastadora: a política perde a compostura e abdica da autoridade moral necessária para investigar terceiros. O Parlamento, que deveria ser o espaço da palavra e do contraditório civilizado, torna-se arena de confronto físico. O dano institucional é profundo.

A convocação de um familiar do presidente da República, por si só, é medida excepcional. Exige fundamentação robusta, indícios consistentes e prudência. O fato de Lulinha ser filho de Lula não o coloca acima de questionamentos.

O imbróglio ganhou novos contornos com a admissão do próprio Lulinha de que o “careca do INSS” teria custeado uma viagem do filho do presidente a Portugal. A revelação desloca o debate do campo da especulação para o terreno da necessidade objetiva de esclarecimentos. Ainda que não se tenha, até o momento, prova de ilegalidade, a questão ética é incontornável. Um gestor vinculado a um órgão sob investigação manter relação financeira com familiar do presidente da República levanta dúvidas legítimas. E dúvidas, em matéria pública, não podem ser varridas para debaixo do tapete.

A oposição, diante da turbulência, acionou o presidente do Senado e do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre, cobrando posicionamento claro sobre a condução da CPMI e sobre os limites regimentais da convocação. A expectativa em torno de sua resposta é mais do que protocolar. Cabe à presidência do Congresso assegurar que a comissão funcione com equilíbrio, que as decisões aprovadas sejam respeitadas e que o processo investigativo não seja esvaziado por manobras políticas nem sequestrado por radicalizações.

Há ainda a controvérsia sobre a prorrogação dos trabalhos. Encerrar a CPMI sob clima de tumulto e com pontos nebulosos pendentes transmitiria à sociedade a sensação de abafamento ou de fracasso. Prorrogar, por outro lado, só fará sentido se houver compromisso real com a produção de provas, a oitiva de testemunhas relevantes e a elaboração de um relatório consistente.

O episódio revela um problema mais amplo: a dificuldade crônica de separar investigação técnica de embate eleitoral. Em um ambiente de polarização permanente, cada movimento é interpretado como ataque ou defesa do governo. A CPMI, instrumento constitucional destinado à fiscalização, corre o risco de se converter em palco de militância. E, quando isso ocorre, todos perdem, inclusive a verdade.

É preciso afirmar com clareza: ninguém deve ser blindado por laços familiares ou proximidade política. Se há elementos que justifiquem esclarecimentos, eles devem ser prestados de forma transparente. Da mesma forma, ninguém pode ser transformado em troféu político para alimentar narrativas. O devido processo legal, a presunção de inocência e o respeito às instituições são pilares que não podem ser sacrificados no altar da conveniência partidária.

O Congresso tem diante de si uma encruzilhada. Pode permitir que a CPMI do INSS seja lembrada como mais um capítulo de tumulto e radicalização, ou pode resgatar sua função fiscalizadora com sobriedade e firmeza. A resposta de Davi Alcolumbre, assim como a postura das lideranças governistas e oposicionistas, será determinante para definir qual caminho prevalecerá.

O Brasil atravessa um momento em que a confiança nas instituições já não é abundante. Cada episódio de descontrole corrói ainda mais essa base frágil. A sociedade não espera perfeição de seus representantes, mas exige responsabilidade. Investigar com rigor, decidir com base em fatos e preservar a ordem institucional não são favores: são deveres constitucionais.

Se a CPMI terminar sob gritos, empurrões e suspeitas mal esclarecidas, o saldo será amargo. Não apenas para o governo ou para a oposição, mas para o próprio Parlamento, cuja autoridade depende da capacidade de agir com equilíbrio. O País precisa de respostas claras sobre o que ocorreu no INSS e sobre eventuais vínculos impróprios. Precisa, sobretudo, de instituições que funcionem.

A política pode ser combativa; não pode ser descontrolada. O Congresso Nacional deve escolher se quer ser protagonista da verdade ou figurante do caos.