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Editorial

Indústria sem confiança

28 de Fevereiro de 2026 às 20:00
Cruzeiro do Sul [email protected]
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Os números divulgados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) não são apenas estatísticas técnicas. São um diagnóstico severo do estado de ânimo — e, por consequência, do estado real - da economia brasileira. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) recuou para 48,2 pontos em fevereiro e acumula 14 meses abaixo da linha divisória dos 50 pontos. Em outras palavras: a indústria brasileira está há mais de um ano sem confiança. E, isso não é detalhe conjuntural. É sintoma estrutural.

Em fevereiro, encerrado ontem, 21 setores industriais declararam falta de confiança. Apenas oito mantêm algum grau de otimismo. O segmento de perfumaria, limpeza e higiene pessoal — tradicionalmente resiliente — caiu abaixo da linha de 50 pontos. Pequenas, médias e grandes empresas permanecem todas em território negativo. O desalento é generalizado e transversal.

Entre aquelas com baixa confiança, estão a indústria da construção, biocombustíveis, transformação e produtos químicos. As confiantes são a de extração mineral, farmacêutica, automotiva, setores voltados à exportação e bebidas.

Confiança empresarial não é um capricho psicológico. É variável econômica central. Tanto o ICEI quanto o Índice de Confiança da Indústria (ICI), calculado pela Fundação Getulio Vargas, funcionam como indicadores antecedentes. Antecipam investimentos, contratações, produção e, no limite, crescimento ou recessão. Quando a confiança se deteriora por período prolongado, as decisões de investimento são adiadas, os planos de expansão são congelados e o emprego se torna variável de ajuste.

A raiz do problema está escancarada: juros em 15% ao ano. O Brasil figura entre os países com os maiores juros reais do mundo. A decisão do Banco Central do Brasil de manter a Selic nesse patamar produz dois efeitos corrosivos. Primeiro, encarece brutalmente o crédito para empresas e consumidores, sufocando consumo e capital de giro. Segundo, forma expectativas negativas. Se o dinheiro é caro hoje, será que a demanda reagirá amanhã? Diante dessa dúvida, o empresário freia. E qual é a responsabilidade do governo Lula? Para simplificar a resposta, basta dizer que é a própria política econômica adotada nesses últimos três anos.

Não se trata de negar a importância do combate à inflação. Trata-se de questionar o custo macroeconômico de uma política monetária que, ao tentar esfriar a economia, pode estar congelando a indústria. O remédio, quando administrado em dose excessiva, transforma-se em veneno.

O recorte regional revela nuances, mas não altera o quadro geral. Norte, Centro-Oeste e Nordeste ainda apresentam índices acima da linha de confiança. Sudeste e Sul — os principais polos industriais do País — permanecem abaixo dos 50 pontos. Quando os motores tradicionais da indústria operam em marcha lenta, o Brasil inteiro sente o impacto.

Confiança é investimento. Investimento é produtividade. Produtividade é crescimento sustentado. A equação é simples. Sem confiança, a capacidade instalada permanece ociosa, os estoques se acumulam ou são ajustados com cortes de produção, e o ciclo econômico perde vigor antes mesmo de engrenar.

O dado mais preocupante talvez não seja a queda de 0,3 ponto em fevereiro. É a persistência do pessimismo. Um mês negativo pode ser ruído estatístico. Quatorze meses consecutivos abaixo da linha de 50 pontos configuram tendência.

O Brasil vive um paradoxo recorrente: exige crescimento robusto, mas convive com ambiente de incerteza fiscal, juros elevados e baixa previsibilidade regulatória. Empresários não investem movidos por discursos; investem movidos por expectativa de retorno, estabilidade e segurança institucional.

Se a confiança industrial é o termômetro antecipado da economia, o diagnóstico atual recomenda atenção urgente. Ignorar esse sinal é optar por tratar os efeitos — desemprego, desaceleração, arrecadação fraca — e não as causas.

A indústria não pede favores. Pede previsibilidade, equilíbrio macroeconômico e um ambiente em que o risco seja calculável. Sem isso, continuará prevalecendo a lógica defensiva: cortar custos, adiar projetos, preservar caixa.

Um país que transforma seus empresários em gestores de sobrevivência, e não de expansão, dificilmente encontrará o caminho do crescimento consistente.