Editorial
Os desafios econômicos
O Conselho Superior de Sociologia, Economia e Política da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de São Paulo (FecomercioSP) emitiu um alerta na terça-feira sobre um segundo semestre desafiador, talvez mais do que o governo esteja disposto a admitir. Num primeiro momento, o alerta parece prematuro. Afinal, hoje termina o segundo mês do ano e já passou o Carnaval.
Porém, a Carta de Conjuntura de fevereiro da Fecomercio avisa que o Brasil deverá entrar na segunda metade do ano — quando o período eleitoral estará em efervecência — com menos fôlego do que sugerem os discursos oficiais. A desaceleração, que já vinha se desenhando após o impulso do pós-pandemia, começa a ganhar contornos mais claros nos números e nas expectativas.
O mercado de trabalho, motor da recuperação recente, perdeu tração. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, foram criados 1,2 milhão de empregos formais em 2025, número inferior aos quase 1,7 milhão registrados em 2024. A diferença não é meramente estatística; ela sinaliza um esfriamento da atividade econômica que começa a atingir o coração do consumo. Menos empregos ou vagas de menor qualidade significam renda mais pressionada e, consequentemente, menos dinamismo no comércio e nos serviços.
Os setores produtivos também mostram perda gradual de vigor. A indústria saiu de uma alta mensal de 3,1% no início do ano para apenas 0,6% em dezembro. O varejo, que chegou a crescer 4,1%, desacelerou para 1,5%. Não se trata de retração abrupta, mas de uma erosão contínua, mais difícil de perceber no curto prazo, porém potencialmente mais preocupante no médio.
Ao mesmo tempo, o ambiente político começa a interferir com mais intensidade nas expectativas econômicas. A proximidade do ciclo eleitoral tende a estimular políticas fiscais expansionistas, elevando o risco de desarranjos nas contas públicas. O mercado, por sua vez, reage antecipadamente: incerteza fiscal é rapidamente traduzida em juros mais altos. E juros elevados encarecem o crédito, travam investimentos e comprimem o consumo, exatamente o que a economia menos precisa em um momento de perda de ritmo.
A inflação, que parecia relativamente comportada, dá sinais ambíguos. O IPCA-15 de fevereiro avançou 0,84%, bem acima dos 0,20% de janeiro, conforme informou o IBGE ontem. O acumulado em 12 meses está em 4,10%, abaixo dos 4,50% anteriores, mas a trajetória recente preocupa. Educação (5,20%) e transportes (1,72%) pressionaram o índice, refletindo reajustes típicos do início do ano e custos estruturais que seguem elevados.
Na alimentação, o quadro é misto: embora a alta geral do grupo tenha sido moderada (0,20%), itens sensíveis como tomate (10,09%) e carnes (0,76%) subiram. A alimentação fora do domicílio registrou variação ainda maior (0,46%), afetando diretamente o orçamento das famílias urbanas. Pequenos alívios, como a queda da energia elétrica residencial, beneficiada pela bandeira verde, ajudam, mas não alteram o pano de fundo.
A expectativa de uma inflação em formato de “U”, com nova elevação após um período de arrefecimento, sintetiza o dilema atual. Se confirmada, exigirá manutenção de juros elevados por mais tempo. Isso significa um ciclo de crédito caro, investimentos postergados e crescimento contido.
O risco fiscal crescente agrava o cenário. A combinação de expansão de gastos, arrecadação pressionada e ausência de reformas estruturais robustas reduz a margem de manobra do governo. Em vez de discutir produtividade, eficiência e modernização do Estado, o debate público tende a se concentrar em medidas de curto prazo com apelo eleitoral, uma estratégia que pode custar caro adiante.
O Brasil não está à beira de uma crise iminente, mas tampouco vive uma bonança sólida. O momento é de transição delicada: desaceleração gradual, inflação resiliente, juros altos e incerteza política. É precisamente nesse tipo de conjuntura que se exige disciplina fiscal, previsibilidade regulatória e compromisso com reformas que ampliem a produtividade.
Ignorar os sinais sob o argumento de que os indicadores ainda não são dramáticos seria um erro. A economia não costuma ruir de um dia para o outro; ela se desgasta silenciosamente. O segundo semestre poderá revelar se o País optará pelo caminho da responsabilidade e da racionalidade econômica ou se cederá, mais uma vez, à tentação de atalhos fiscais que aliviam o presente e comprometem o futuro.