Editorial
Negligência histórica
O Brasil acostumou-se a naturalizar o desperdício. Desperdício de recursos, de oportunidades e, sobretudo, de talentos. O relato da pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sobre a perda da patente internacional da polilaminina por falta de verba, não é apenas um episódio administrativo lamentável. É um símbolo contundente de um país que insiste em sabotar a própria inteligência.
A polilaminina — rede de proteínas desenvolvida ao longo de quase duas décadas — é uma descoberta com potencial de reescrever a história da medicina regenerativa. Em testes clínicos iniciais, oito pacientes paraplégicos ou tetraplégicos receberam a aplicação do material; seis recuperaram movimentos. Um deles, que não movia nada do pescoço para baixo, voltou a andar sozinho. Em qualquer nação que leve a ciência a sério, resultados dessa magnitude seriam tratados como prioridade estratégica de Estado.
O pedido de patente foi feito em 2007. A concessão nacional veio apenas em 2025 — 18 anos depois. Como toda patente, tem prazo de validade: 20 anos. Ou seja, restam apenas dois anos de exclusividade no Brasil. No plano internacional, porém, a situação é ainda mais grave. Segundo a cientista, a UFRJ deixou de pagar as taxas necessárias à manutenção da patente no exterior em meio aos cortes orçamentários de 2015 e 2016, durante as gestões de Dilma Rousseff e Michel Temer. O resultado é irreversível: o País perdeu a proteção internacional.
Não se trata aqui de disputa partidária rasteira. O problema é estrutural. Governos passam, contingenciamentos variam, mas a ausência de uma política de Estado consistente para ciência e tecnologia permanece. A falta de poucos recursos para manter uma patente internacional — valor irrisório diante do orçamento federal — pode ter custado ao Brasil bilhões em royalties futuros, parcerias estratégicas e, mais importante, protagonismo científico.
Patente internacional não é vaidade acadêmica. É instrumento de soberania econômica. Países que dominam tecnologias biomédicas não apenas salvam vidas; criam cadeias produtivas, exportam conhecimento, atraem investimentos e consolidam liderança global. Ao perder a proteção internacional da polilaminina, o Brasil abre espaço para que laboratórios estrangeiros explorem comercialmente uma tecnologia concebida em seus próprios centros de pesquisa.
O episódio escancara uma contradição cruel. O Brasil forma pesquisadores de excelência, sustenta universidades públicas reconhecidas e produz ciência de impacto, mas falha no momento decisivo: transformar descoberta em inovação protegida e riqueza social. A pesquisadora chegou a financiar parte do processo do próprio bolso, gesto que revela compromisso pessoal, mas também denuncia o abandono institucional.
A Universidade Federal do Rio de Janeiro, uma das mais tradicionais do País, não pode ser reduzida à condição de pedinte crônica. Ciência de ponta exige previsibilidade orçamentária. Não é possível conduzir pesquisas que atravessam décadas sob a permanente ameaça de contingenciamento. O tempo da ciência é diferente do tempo da política. Descobertas como a polilaminina não cabem no calendário eleitoral.
Mais grave ainda é o impacto simbólico. Jovens cientistas observam que, mesmo quando produzem algo extraordinário, o sistema pode falhar no básico: pagar a manutenção de uma patente. Que mensagem isso transmite? Que inovar no Brasil é um ato heroico, quase solitário, dependente da abnegação individual.
É preciso dizer com clareza: perder uma patente internacional por falta de verba não é fatalidade econômica; é escolha política. Em um país que movimenta trilhões em orçamento, alegar incapacidade de manter a proteção global de uma tecnologia capaz de devolver movimentos a paraplégicos beira o absurdo.
A polilaminina representa esperança concreta para milhares de pessoas com lesão medular. Representa também a prova de que o Brasil tem competência científica para competir no mais alto nível. O que falta não é talento, mas visão estratégica. Ciência não pode ser tratada como despesa contingenciável; é investimento estruturante.
Se o Brasil deseja, de fato, romper com a dependência tecnológica e alcançar desenvolvimento sustentável, precisa aprender com esse erro. Patentes, laboratórios e pesquisadores não sobrevivem de discursos. Sobrevivem de planejamento, financiamento estável e compromisso de longo prazo.
A história da polilaminina deveria ser celebrada como marco da ciência nacional. Em vez disso, tornou-se advertência severa. O Brasil não pode continuar sendo o país que descobre, mas não protege; que cria, mas não colhe; que inova, mas deixa escapar. Ciência é poder — e abrir mão dele é, no mínimo, um ato de negligência histórica.