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Editorial

O valor do milho paulista

16 de Fevereiro de 2026 às 20:30
Cruzeiro do Sul [email protected]
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O avanço da produção de milho no Estado de São Paulo é um indicativo robusto de transformação estrutural na dinâmica agrícola paulista e de uma demonstração inequívoca de que planejamento técnico, pesquisa científica e articulação institucional ainda são capazes de gerar resultados concretos no Brasil, um país marcado por improvisos e instabilidades. Quando o Valor da Produção Agropecuária ultrapassa a marca de R$ 4 bilhões e registra crescimento superior a 26% em apenas um ano, não se está diante de mera oscilação de mercado, mas de uma mudança de patamar produtivo que exige reflexão estratégica.

Os números preliminares divulgados pelo Instituto de Economia Agrícola relativos a 2025 revelam que o milho deixou de ocupar papel secundário no portfólio agrícola paulista para figurar entre os dez principais produtos cultivados no Estado. Essa ascensão não é fortuita. Ela resulta de uma combinação entre demanda crescente, eficiência produtiva e, sobretudo, capacidade de adaptação do produtor rural às exigências de um mercado cada vez mais técnico e competitivo. O crescimento de mais de 14% no volume cultivado na safra 2024/25 demonstra que houve confiança do agricultor em investir na cultura, mesmo diante de custos elevados de insumos e incertezas macroeconômicas.

O protagonismo paulista reforça outro aspecto: a importância do interior na descentralização do desenvolvimento. Não se trata apenas de grandes polos ou de áreas historicamente consolidadas, mas de uma expansão territorial que distribui renda, gera empregos e fortalece a economia. Quando mais de metade da produção se concentra em regiões interioranas, o impacto extrapola o campo e alcança o comércio, a logística e a própria arrecadação municipal, criando um círculo virtuoso que raramente recebe o devido reconhecimento nas discussões públicas.

É impossível dissociar esse desempenho do trabalho técnico conduzido por órgãos públicos de assistência e pesquisa, que mostra que a extensão rural é investimento estratégico. A transferência de tecnologia, os treinamentos e os dias de campo representam, na prática, a ponte entre o conhecimento científico e a realidade do produtor. O milho paulista oferece um exemplo concreto de que a presença técnica do Estado, quando bem direcionada, produz resultados mensuráveis.

Outro elemento determinante é o fortalecimento das cadeias produtivas associadas. O milho não é apenas um grão; ele é insumo essencial para a produção de carnes, para a indústria alimentícia e para nichos de mercado que agregam valor além de incentivar práticas sustentáveis, difundir conhecimento e pressionar por políticas que garantam competitividade. O solo mais saudável, a rotação de culturas e o aumento de produtividade são fatores de sobrevivência econômica em um cenário global cada vez mais exigente em padrões ambientais.

O programa Milho+SP surge, nesse panorama, como exemplo de política pública que combina pragmatismo e visão de longo prazo. Ao incentivar o cultivo na reforma de pastagens e buscar ganhos de produtividade em áreas já consolidadas, o programa demonstra compreensão de que expansão territorial não pode ocorrer à custa de degradação ambiental. A parceria com empresas privadas revela ainda um modelo de cooperação que, quando bem fiscalizado, pode acelerar inovação sem transferir integralmente os riscos ao produtor. É a síntese de um caminho que o Brasil hesita em trilhar: o da colaboração entre Estado, ciência e iniciativa privada.

Entretanto, o aspecto mais promissor talvez esteja na pesquisa genética e no desenvolvimento de cultivares específicas. Em vez de limitar-se à produção de commodities, São Paulo investe em nichos de maior valor agregado, capazes de gerar margens superiores e ampliar a competitividade internacional. Esse movimento sinaliza maturidade econômica: produzir mais é relevante, mas produzir melhor e com maior valor agregado é decisivo.

O caso do milho paulista também expõe uma verdade frequentemente ignorada nos debates ideológicos: o agronegócio não é um bloco monolítico e tampouco um vilão ambiental automático. Ele pode — e deve — ser vetor de inovação sustentável quando respaldado por ciência, fiscalização e políticas consistentes. O desafio está em manter essa trajetória sem sucumbir a descontinuidades administrativas, cortes indiscriminados de orçamento ou visões simplistas que tratam o setor ora como salvador absoluto, ora como ameaça irreversível.