Editorial
‘Brasilização’ causa inquietação
O alerta vindo da imprensa internacional costuma produzir dois efeitos simultâneos no debate público brasileiro: de um lado, a resistência automática de quem vê ingerência externa; de outro, a inevitável inquietação de quem reconhece que, muitas vezes, o olhar de fora revela distorções que o cotidiano interno já naturalizou. O artigo publicado pela The Economist na quinta-feira enquadra-se precisamente nessa segunda categoria. Ao utilizar o Brasil como exemplo de advertência para economias desenvolvidas, a revista não apenas lança luz sobre fragilidades estruturais nacionais, como também sugere que tais desequilíbrios deixaram de ser um problema exclusivamente doméstico para se tornarem um paradigma de risco global.
O conceito de “brasilização”, empregado no texto, não é novo, mas ganha contornos mais inquietantes no atual cenário. Trata-se da ideia de que uma nação pode ostentar indicadores aparentemente positivos — crescimento do PIB, autonomia formal do Banco Central e um orçamento primário próximo do equilíbrio — e, ainda assim, caminhar para uma espiral de endividamento difícil de conter. O paradoxo brasileiro, portanto, não está na ausência de números favoráveis, mas na incapacidade de transformá-los em sustentabilidade de longo prazo. É o retrato de uma economia que cresce sem garantir bases sólidas e que equilibra contas no papel enquanto amplia compromissos futuros de forma silenciosa e contínua.
Essa leitura externa adquire relevância particular quando confrontada com a condução da política econômica do governo Lula (PT). Ao priorizar expansão de gastos e flexibilização de metas fiscais em nome de estímulos imediatos, a administração federal transmite ao mercado e à sociedade um sinal de curto-prazismo que cobra seu preço em juros persistentemente elevados. Não se trata apenas de divergência ideológica sobre o papel do Estado, mas de uma equação aritmética: despesas crescentes, arrecadação limitada e custo do dinheiro em patamares altos formam uma combinação que comprime investimentos produtivos e amplia o peso da dívida pública.
O impacto dessa dinâmica vai além dos indicadores macroeconômicos. Quando o orçamento público se torna refém do serviço da dívida, o espaço para políticas estruturantes — infraestrutura, educação de qualidade, inovação tecnológica e saúde eficiente — diminui progressivamente. O resultado é um ciclo perverso: o País gasta mais para sustentar a máquina estatal e paga mais caro para se financiar, enquanto investe menos naquilo que poderia, de fato, elevar a produtividade e o bem-estar da população. A “brasilização” descrita pela revista britânica não é, portanto, apenas um fenômeno financeiro; é também social e institucional.
A gravidade do momento se intensifica pelo contexto eleitoral. A busca pela reeleição tende a incentivar decisões orientadas por resultados imediatos e apelo popular, frequentemente em detrimento da responsabilidade fiscal de longo prazo. Medidas que aliviam pressões conjunturais podem se converter em passivos duradouros, transferindo ao futuro — e às próximas gerações — o custo político que o presente prefere evitar. É nesse ponto que o alerta internacional deixa de ser mera crítica externa e passa a funcionar como espelho incômodo de escolhas internas.
Não se trata de negar avanços pontuais nem de desconsiderar variáveis externas que também influenciam o desempenho econômico. O problema reside na ausência de uma estratégia consistente que alinhe crescimento, disciplina fiscal e previsibilidade regulatória. Sem esse tripé, qualquer melhora conjuntural tende a ser efêmera, e o Brasil permanece vulnerável a oscilações de confiança e fuga de capitais. Juros altos deixam de ser ferramenta temporária de controle inflacionário e passam a representar um sintoma crônico de desconfiança estrutural.
Ao transformar o Brasil em estudo de caso, a The Economista expõe uma verdade desconfortável: a reputação econômica de uma nação não se constrói apenas com discursos ou indicadores isolados, mas com coerência entre promessas e práticas. Quando essa coerência falha, o país deixa de ser referência de oportunidade e passa a figurar como exemplo de advertência. A lição implícita é clara e dura: sem responsabilidade fiscal efetiva, planejamento de longo prazo e prioridade real aos investimentos produtivos, o crescimento torna-se retórico, a dívida se torna protagonista e o futuro econômico permanece permanentemente hipotecado. Para a The Economist os problemas do Brasil vão além dos “desperdícios” de Lula. Na semana passada, a revista havia publicado outra análise sobre o País e cravou que a “trajetória da dívida brasileira é insustentável e que os pessimistas estão certos em prever problemas”. A revista também criticou o sistema tributário, classificado como uma “bagunça”.