Editorial
Apreendendo com a tilápia
No ambiente contemporâneo de informação instantânea, uma notícia mal interpretada pode atravessar fronteiras com velocidade superior à de qualquer política pública formal. Foi o que se observou no episódio envolvendo a suposta intenção da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, de restringir a criação de tilápia no Brasil. Para ela, a questão está pautada em diretrizes técnicas que consideram o peixe uma espécie exótica e invasora, capaz de gerar desequilíbrios ecológicos em ecossistemas nativos, o que tem gerado intensas controvérsias com o setor do agronegócio e piscicultura.
A tilápia se consolidou como o principal peixe cultivado no Brasil, representando 68% da piscicultura nacional em 2024. Segundo dados da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), o país produziu 660 mil toneladas da espécie no ano e deve ampliar essa participação para 80% até 2030, informa a Associação Brasileira de Piscicultura, a Peixe BR.
Ainda que posteriormente o governo tenha esclarecido que não se tratava de uma proibição generalizada, o dano — ao menos no campo da percepção — já estava feito. O ruído gerado internamente ecoou externamente e encontrou, no Paraguai, terreno fértil para a ação estratégica.
A assinatura de um decreto pelo presidente paraguaio ampliando a criação de tilápia utilizando as águas de Itaipu revela mais do que uma simples decisão econômica. Trata-se de um movimento geopolítico e produtivo que evidencia como a insegurança regulatória, ainda que momentânea ou mal comunicada, pode gerar vantagens competitivas para vizinhos atentos. Enquanto o Brasil discutia a interpretação de uma notícia, o Paraguai enxergou uma janela de oportunidade. O presidente Santiago Peña, sancionou no início de 2026 a lei que autoriza a criação de tilápias em tanques-rede no Lago de Itaipu.
Mas, a tilápia não é um peixe qualquer na economia brasileira. O País consolidou-se, nos últimos anos, como um dos maiores produtores do mundo, com forte presença de pequenos e médios produtores, cooperativas e cadeias produtivas regionais que movimentam empregos, exportações e desenvolvimento local. Qualquer sinal — ainda que impreciso — de restrição ambiental sem o devido esclarecimento técnico gera apreensão em um setor que depende de previsibilidade para investir.
É importante reconhecer que a pauta ambiental não pode e não deve ser tratada como obstáculo ao crescimento econômico. A sustentabilidade é, hoje, elemento indissociável da competitividade global. No entanto, o problema não reside na preocupação ambiental em si, mas na forma como ela é comunicada e traduzida em políticas públicas. Quando a mensagem é ambígua, o mercado reage com cautela; quando é mal interpretada, reage com retração; e quando encontra concorrentes mais ágeis, perde espaço.
O caso da tilápia ilustra um dilema do Brasil atual: a dificuldade em alinhar discurso, regulação e estratégia econômica. O País possui abundância hídrica, conhecimento técnico e capacidade produtiva. Ainda assim, frequentemente vê suas vantagens naturais serem relativizadas por ruídos institucionais ou indefinições normativas. O Paraguai, ao agir rapidamente, demonstrou que, em economia, a percepção muitas vezes vale tanto quanto a realidade concreta.
Não se trata de defender uma exploração indiscriminada de recursos naturais nem de minimizar impactos ambientais legítimos. O ponto central é a necessidade de equilíbrio entre proteção ambiental e segurança jurídica. O produtor precisa saber quais são as regras do jogo — e, sobretudo, que elas não mudarão ao sabor de interpretações midiáticas ou declarações pouco precisas. Sem isso, o investimento migra, a produção se desloca e a competitividade se dilui.
Outro aspecto relevante é o papel da comunicação governamental. Em tempos de redes sociais e circulação massiva de informações, a ausência de esclarecimento rápido pode gerar consequências econômicas reais. Uma simples nota tardia pode não ser suficiente para conter os efeitos de uma manchete inicial. A gestão da informação tornou-se parte da própria política pública, e negligenciá-la significa abrir espaço para distorções com impacto direto no mercado.
O episódio também reforça a importância de uma visão estratégica regional. Itaipu é uma usina binacional, símbolo de cooperação energética entre Brasil e Paraguai. No entanto, a utilização de suas águas para fins produtivos expõe como cada país pode adotar rumos distintos diante de um mesmo recurso compartilhado. A diferença não está na disponibilidade, mas na decisão política e na velocidade de execução.
No fim das contas, a discussão sobre tilápia transcende o peixe e revela um debate maior sobre governança, comunicação e competitividade. O Brasil não carece de recursos nem de capacidade técnica; carece, muitas vezes, de clareza, coordenação e um bom governo. Em um mundo onde oportunidades não esperam, a hesitação — ainda que involuntária — pode custar caro.
A lição que fica é simples e contundente: em economia e política pública, o vazio de informação raramente permanece vazio. Ele é rapidamente preenchido por interpretações, especulações ou, pior, por iniciativas de quem está disposto a agir enquanto outros ainda discutem. Entre o ruído e a oportunidade, vence quem transforma incerteza alheia em estratégia própria.