Editorial
Essa é a realidade
Os números mais recentes da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, revelam um retrato inquietante do cotidiano financeiro das famílias brasileiras. Quando 79,5% dos lares admitem possuir algum tipo de dívida — índice que iguala o maior patamar já registrado — não se trata apenas de uma estatística fria, mas de um sintoma estrutural de uma economia que perdeu o equilíbrio entre consumo, renda e crédito. O dado por si só já exigiria atenção redobrada das autoridades econômicas. No entanto, o que se observa é um cenário em que o endividamento avança enquanto o discurso oficial insiste em vender estabilidade e otimismo.
É verdade que a inadimplência apresentou recuo pelo terceiro mês consecutivo. À primeira vista, o indicador poderia ser interpretado como sinal de melhora. Contudo, a leitura mais cautelosa revela outra face: não se trata necessariamente de maior folga financeira das famílias, mas muitas vezes de renegociações sucessivas, alongamento de prazos e substituição de dívidas antigas por novas. Em outras palavras, o problema não desaparece, apenas muda de forma. A queda pontual da inadimplência não anula o fato central de que quase oito em cada dez famílias convivem com algum compromisso financeiro pendente e os números mostram isso. Em dezembro, o nível de endividamento estava em 78,9%.
O aspecto mais alarmante é a distribuição desse endividamento. Entre os lares que recebem até três salários mínimos, o índice alcança 82,5%, evidenciando que o peso das dívidas recai com maior intensidade sobre quem possui menor capacidade de absorver choques econômicos. Já nas faixas mais altas de renda, o percentual é significativamente menor. Esse descompasso expõe a fragilidade de uma política econômica que, apesar de discursos voltados à justiça social, não consegue proteger justamente os mais vulneráveis da espiral do crédito caro e do consumo forçado.
O cartão de crédito desponta como o principal vilão silencioso. Presente em 85,4% dos casos de endividamento, ele simboliza a facilidade ilusória de acesso ao consumo imediato, seguida por juros que corroem a renda futura. Não se trata apenas de má educação financeira individual, como muitas vezes se tenta atribuir, mas de um ambiente macroeconômico que estimula o consumo sem oferecer as condições adequadas de sustentabilidade. Quando quase 30% do orçamento familiar é destinado ao pagamento de dívidas, o que se tem não é dinamismo econômico, mas aprisionamento financeiro.
A taxa Selic em 15% ao ano escancara a contradição da atual condução econômica. Mantida em nível elevado como instrumento de controle inflacionário, ela funciona como um freio brusco sobre investimentos e consumo. O governo, por um lado, defende crescimento e geração de empregos; por outro, convive com uma política monetária restritiva que encarece o crédito e desacelera a atividade produtiva. Ainda que o Banco Central possua autonomia formal, é inegável que o ambiente fiscal e a confiança nos rumos da economia influenciam diretamente a necessidade de juros tão altos. A persistência de incertezas fiscais e o aumento recorrente de gastos públicos alimentam o receio do mercado e pressionam a política monetária, criando um círculo vicioso que acaba sendo pago pelo consumidor comum.
O argumento de que o endividamento aquece a economia tem validade teórica, mas encontra limites práticos quando o crédito deixa de ser instrumento de desenvolvimento e passa a ser mecanismo de sobrevivência. Dívida saudável pressupõe renda crescente e estabilidade de expectativas. O que se observa, porém, é o oposto: famílias comprometendo metade ou mais de seus rendimentos apenas para manter contas em dia, enquanto a perspectiva de melhora real se mantém distante.
As projeções de aumento do endividamento no primeiro semestre reforçam a sensação de que o País opera em piloto automático, sem uma estratégia clara de equilíbrio entre responsabilidade fiscal, estímulo produtivo e proteção social efetiva.
No fundo, o avanço do endividamento das famílias é menos um fenômeno financeiro e mais um termômetro político. Ele revela que a política econômica atual falha em entregar previsibilidade, confiança e crescimento sustentável.