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Editorial

O custo do Estado

05 de Fevereiro de 2026 às 21:00
Cruzeiro do Sul [email protected]
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Os números apresentados pela plataforma Gasto Brasil causam impacto imediato e quase inevitável perplexidade: R$ 500 bilhões de despesa pública já em janeiro de 2026, média de R$ 16 bilhões por dia, R$ 670 milhões por hora e a projeção de R$ 6 trilhões ao final do exercício. São cifras que, isoladas, possuem força retórica própria e cumprem com eficiência o papel de chamar a atenção da sociedade. Contudo, mais do que o espanto inicial, é preciso analisar o que tais números realmente revelam — e, sobretudo, o que ainda ocultam — sobre a máquina estatal brasileira e sua dinâmica de gastos.

A existência de uma plataforma como o Gasto Brasil é, sem dúvida, positiva do ponto de vista da transparência e do acesso à informação, pois se dependesse do Estado as informações custariam a chegar ao cidadão. A digitalização e a integração de dados públicos representam um avanço institucional relevante devido a histórica opacidade fiscal e linguagem orçamentária inacessível. A possibilidade de acompanhar despesas por esfera de poder, região e natureza de gasto tende a fortalecer o controle social e a qualificar o debate público. Porém, é preciso reconhecer que transparência, por si só, não equivale automaticamente a eficiência nem a responsabilidade fiscal.

O problema central não reside apenas na divulgação do volume de despesas, mas na incapacidade estrutural de se discutir com profundidade a qualidade desses gastos. Um número absoluto elevado pode ser alarmante, mas carece de contexto: qual a proporção em relação ao Produto Interno Bruto? Qual o crescimento real em comparação aos anos anteriores? Quanto corresponde a despesas obrigatórias e quanto a investimentos produtivos? Sem essas perguntas, corre-se o risco de transformar dados complexos em meras manchetes sensacionalistas, que geram indignação momentânea, mas não promovem entendimento real.

A própria metodologia da plataforma, embora tecnicamente robusta ao utilizar APIs da Secretaria do Tesouro Nacional e processos automatizados de coleta e revisão contínua, não está imune a limitações inerentes às projeções. Estimar despesas futuras com base em tendências lineares pode induzir a interpretações equivocadas, pois o orçamento público sofre interferências sazonais, políticas e econômicas ao longo do ano.

Outro ponto que merece reflexão é a natureza do gasto público brasileiro. Grande parte das despesas está atrelada a obrigações constitucionais, folha de pagamento, previdência e encargos sociais. Sobra pouco para investimentos naquilo que o brasileiro precisa.

O Estado precisa reduzir custos e redefinir prioridades, revisar vinculações automáticas e aprimorar a eficiência administrativa sem comprometer serviços essenciais. Cortar despesas indiscriminadamente pode ser tão prejudicial quanto gastar sem critério. O equilíbrio entre responsabilidade fiscal e proteção de direitos fundamentais é uma equação delicada que não se resolve apenas com planilhas.

E, na prática, sobra a percepção de que o cidadão não enxerga retorno proporcional ao volume arrecadado pelo Estado e que o dinheiro público serve apenas para sustentar a máquina e interesses de quem está no poder. Esse é, talvez, o ponto mais sensível e mais legítimo de toda a discussão sobre gasto público no Brasil. Não se trata apenas de números elevados, mas da sensação difusa e persistente de desconexão entre o que se paga e o que se recebe. Quando hospitais enfrentam filas intermináveis, escolas lutam contra carências estruturais e estradas permanecem deterioradas, a pergunta inevitável não é apenas “quanto se gasta?”, mas “por que se gasta tanto e se entrega tão pouco?”

Há também o fenômeno da pulverização de recursos. O dinheiro público, quando excessivamente fragmentado em múltiplos programas, emendas, convênios e iniciativas dispersas, perde potência transformadora. Em vez de grandes projetos estruturantes com impacto visível, multiplicam-se ações pontuais, muitas vezes com finalidade política imediata e alcance limitado. O cidadão, naturalmente, não percebe melhoria concreta porque o recurso não se converte em políticas de escala, mas em intervenções diluídas.

Outro fator relevante é a falta de cultura de responsabilização. No setor privado, desperdício e ineficiência costumam gerar consequências rápidas. No setor público, a responsabilização é mais lenta, difusa e frequentemente absorvida pela própria estrutura.

A percepção de que o dinheiro serve apenas para sustentar a máquina e quem está no poder nasce justamente dessa combinação de fatores.