Editorial
Atrás do dinheiro
Quando as coisas não vão bem no governo, principalmente em ano eleitoral, medidas urgentes precisam ser tomadas. E as mais fáceis são as mais buscadas ainda mais quando se precisa de dinheiro e tem a caneta nas mãos.
Dessa forma, um novo título público será lançado em março pelo Tesouro Nacional. Chamado de Tesouro Reserva, ele será indexado à taxa básica de juros Selic e pretende atrair mais investidores ao Tesouro Direto, conforme informou o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, na sexta-feira. “O Tesouro Reserva vai entrar junto com a nova plataforma do Tesouro Direto, que vai rodar 24x7, ou seja, vai estar disponível 24 horas por dia, nos sete dias da semana, justamente para dar acesso principalmente para as camadas mais populares da população e que, durante o dia, não têm tempo ou condições de ter acesso a isso”, explicou.
O investidor do Tesouro Reserva vai poder fazer aplicações a partir de R$ 1. O vencimento do papel será de três anos, mas o resgate pode ser feito a qualquer momento, sem descontos.
Atualmente, o outro título do governo, o Tesouro Direto, conta com pouco mais de três milhões de investidores ativos. Com o novo título, a intenção é ampliar esse número de investidores. Porém, Rogério Ceron não revelou quanto o governo espera arrecadar em 2026 com o novo título.
Mas, para se ter uma ideia, as vendas de títulos do Tesouro Direto somaram R$ 6,193 bilhões em novembro deste ano. Já os resgates totalizaram R$ 3,367 bilhões, sendo R$ 3,058 bilhões referente às recompras (resgates antecipados) e R$ 308,8 milhões referentes aos vencimentos do mês, quando o prazo do título acaba e o governo precisa reembolsar o investidor com juros.
O estoque total do Tesouro Direto alcançou R$ 205,4 bilhões no fim de novembro, com aumento de 2,2%, na comparação com o mês anterior (R$ 201 bilhões).
Os títulos mais procurados pelos investidores são os vinculados à Selic — a taxa básica de juros da economia, atualmente em 15% ao ano, mantida assim para conter a inflação, que resiste recuar. Com os juros altos, os papéis continuam atrativos.
Investir em títulos do governo pode ser um bom negócio, mas nem sempre, nem para todo mundo, nem em qualquer contexto. O que define se é um bom negócio são as condições econômicas, o perfil do investidor e, sobretudo, a situação fiscal do próprio governo.
Para o governo, num primeiro momento, é um bom negócio. Títulos públicos são o principal instrumento de financiamento do Estado brasileiro. Sempre que o governo lança novos papéis — ainda mais com juros altos, liquidez total e acesso facilitado — ele está, na prática, captando dinheiro da sociedade para fechar suas próprias contas. É crédito imediato, legal e contínuo.
O problema é que essa facilidade cobra um preço alto. Juros elevados significam que o governo está comprando tempo, não resolvendo o problema. Cada novo título emitido amplia o estoque da dívida e aumenta a conta de juros, que consome uma fatia crescente do orçamento público, ou seja dinheiro que deixa de ir para saúde, educação e infraestrutura.
Então, inicialmente, vender títulos públicos, é ótimo para o governo no curto prazo. Mas é preocupante para o País no médio e longo prazo, ainda mais quando vem desacompanhado de responsabilidade fiscal, controle de gastos e reformas estruturais. Endividamento fácil é confortável. Sustentabilidade fiscal, não.
Há ainda um efeito colateral relevante: ao competir agressivamente pela poupança do cidadão, o governo drena recursos do setor produtivo, desestimulando investimentos privados e travando o crescimento econômico. O Estado passa a concorrer com quem produz, em vez de criar condições para que a economia cresça. Como modelo econômico, a excessiva dependência do governo nesse tipo de financiamento é um sinal de alerta e não de virtude. Quando essa captação vira regra, costuma indicar um péssimo sintoma ao País.
Quando o discurso oficial apresenta esses títulos como “cidadania financeira” ou “inclusão”, convém lembrar: não há altruísmo fiscal. O governo não lança títulos para educar financeiramente a população, mas porque precisa financiar gastos que não cabem mais no orçamento.