Editorial
A promiscuidade no poder
O noticiário recente voltou a expor uma chaga antiga da vida pública brasileira: o tráfico de influências. As revelações que envolvem autoridades do mais alto escalão da República, inclusive ministros do Supremo Tribunal Federal, e o rumoroso escândalo do Banco Master não são episódios isolados nem desvios ocasionais. São sintomas de um problema estrutural, profundamente enraizado na forma como o poder é exercido, negociado e protegido no Brasil.
Quando relações pessoais, cargos públicos e interesses privados se misturam de maneira indevida, o que se instala não é apenas um ambiente de suspeição, mas um modelo disfuncional de governança. O tráfico de influências corrói os pilares da institucionalidade democrática porque subverte a lógica republicana: decisões que deveriam obedecer à legalidade, à impessoalidade e ao interesse público passam a ser orientadas por proximidades, conveniências e favores.
O caso do Banco Master, que envolve suspeitas de benefícios obtidos por meio de conexões políticas e institucionais, insere-se nesse contexto mais amplo de captura do Estado. Não se trata apenas de eventuais ilegalidades a serem apuradas, mas de um padrão recorrente: empresas e grupos econômicos que prosperam menos pela eficiência e mais pela capacidade de transitar nos corredores do poder. O resultado é um mercado distorcido, concorrência desleal e um sistema financeiro que deixa de servir à economia real para atender a interesses seletivos.
Ainda mais grave é quando esse tipo de prática alcança instituições que deveriam funcionar como último bastião de equilíbrio e controle. O Supremo Tribunal Federal, por sua natureza e responsabilidade, deveria estar acima de qualquer suspeita. Ministros não são apenas intérpretes da Constituição; são símbolos da autoridade moral do Estado. Qualquer indício de proximidade imprópria com agentes econômicos ou políticos compromete não apenas reputações individuais, mas a credibilidade da própria Corte.
O tráfico de influências prospera em ambientes onde a fiscalização é frouxa, a transparência é limitada e a responsabilização é rara. No Brasil, esses fatores se combinam com uma cultura política tolerante à confusão entre o público e o privado. Ao longo de décadas, naturalizou-se a ideia de que “ter acesso” é mais importante do que ter razão, de que relações valem mais do que regras. Esse vício cultural se perpetua porque raramente gera consequências à altura do dano causado.
Os prejuízos institucionais são profundos e duradouros. A confiança nas instituições se esvai, o descrédito se espalha e o cidadão comum passa a enxergar o Estado como uma estrutura capturada por interesses que não o representam. Investidores recuam diante da insegurança jurídica, políticas públicas perdem legitimidade e a democracia se enfraquece quando as regras do jogo parecem valer apenas para alguns.
Há também um custo econômico direto. O tráfico de influências encarece o crédito, distorce decisões regulatórias e afasta investimentos produtivos. Ao favorecer determinados grupos, o Estado penaliza a maioria, reduz a eficiência do sistema e contribui para um ambiente de baixo crescimento, desigualdade persistente e oportunidades concentradas.
Combater esse problema exige mais do que discursos indignados ou investigações pontuais. É necessário fortalecer mecanismos de controle, ampliar a transparência das relações institucionais e, sobretudo, estabelecer uma cultura efetiva de responsabilização. Autoridades públicas, independentemente do cargo que ocupem, precisam compreender que influência não é prerrogativa pessoal, mas poder delegado em nome da sociedade.
Enquanto o tráfico de influências continuar sendo tratado como um desvio tolerável — ou pior, como parte do “funcionamento normal” do sistema — o Brasil seguirá pagando um preço alto demais em credibilidade, desenvolvimento e justiça. A democracia não sobrevive onde o acesso vale mais que a lei, e a República se esvazia quando a proximidade com o poder substitui o mérito e a legalidade.
Mais do que um escândalo passageiro, os episódios recentes deveriam servir como alerta definitivo: ou o País enfrenta essa prática de forma estrutural, ou continuará refém de um modelo que privilegia poucos, desmoraliza instituições e condena milhões de brasileiros a um Estado que não funciona para todos.