Editorial
O efeito Trump
O segundo mandato do presidente Donald Trump impõe uma política internacional agressiva aos países contrários aos interesses norte-americanos. Sanções comerciais severas e ações militares diretas, como na Venezuela, geram impacto profundo nas relações entre os países. As medidas e decisões tomadas por Trump são muitas e, na maioria das vezes, precisam de tempo para avaliação e posicionamento de outros líderes mundiais diante de novas configurações e possibilidades que surgem rapidamente.
O feito mais recente e que gerou uma grande repercussão em todo o mundo foi a destituição à força do ditador venezuelano Nicolás Maduro. Parte da comunidade internacional protestou, mas a maioria da população da Venezuela apoiou, como se viu nas manifestações de rua em Caracas e outras cidades do país. A intervenção norte-americana no país latino-americano que tem a maior reserva mundial de petróleo mexeu com muitos interesses, principalmente da China, Rússia e Cuba.
Antes do ataque a Caracas, os EUA bombardearam barcos que supostamente transportavam drogas. O problema do tráfico internacional é de importância para os americanos, que continuam a viver a gravidade da dependência química entre seus cidadãos, agravada pelos novos e diversos tipos de droga, muitas delas vindas de países da Ásia.
Dentro desse contexto, do tráfico internacional, Trump conversou recentemente com o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, e a presidente do México, Claudia Sheinbaum. Os dois líderes latino-americanos classificaram as conversas de proveitosas, no sentido de unir forças para combater o tráfico. Trump e Petro também trataram de outros temas, como energia renovável. Após a conversa pelo telefone, o presidente da Colômbia mudou sua postura, pois antes havia dito que o presidente dos EUA tinha “um cérebro senil” e que via “os verdadeiros libertários como narcoterroristas por não entregar a ele carvão ou petróleo”.
O novo capítulo é a revolta popular no Irã, iniciada por reclamação do aumento do custo de vida, mas que escalou para protestos contra o regime do aiatolá Ali Khamenei. As forças do governo iraniano tentam sufocar as manifestações de rua com violência. Não há número exato de mortes, mas podem ter ultrapassado mil.
O Irã enfrenta “pressão máxima” com os manifestantes nas ruas que parecem não recuar com os passar dos dias. A isso se soma a instabilidade interna e altas tensões externas, especialmente com os Estados Unidos e Israel. O país é predominantemente muçulmano xiita e tem cerca de 93 milhões de habitantes.
Os protestos são os maiores desde a revolução de 1979, com a insatisfação popular se espalhando por camadas da sociedade, incluindo comerciantes, uma base tradicional de apoio ao regime teocrático do aiatolá. Interrupção da internet e censura à imprensa na cobertura dos protestos tentam esconder a brutalidade dos acontecimentos recentes.
Em junho do ano passado, os Estados Unidos bombardearam instalações nucleares no Irã, em resposta para ataques a Israel e porque os iranianos estariam obstruindo fiscalizações internacionais ao seu programa de enriquecimento de urânio para fins que não seriam bélicos.
Diante dos atos nas ruas, Trump sinalizou apoio militar direto para derrubar o governo do Irã, alertando que o uso de força letal pelo regime contra sua própria população terá consequências. O movimento popular nas ruas comove a opinião internacional e amplia o poder de persuasão dos Estados Unidos. O que antes parecia intromissão indevida nos destinos de um país agora se revela algo urgente e necessário.
A aprovação internacional faz com que ações militares ganhem sentido, apesar de mortes a mais e destruição que causam. Apesar de críticas que vem recebendo, o saldo da intervenção na Venezuela está sendo positivo para Donald Trump, que conseguiu reduzir a influência da China e da Rússia. A demonstração do poderio militar dos Estados Unidos, que poderá ser usado também no Irã, serve como aviso sobre a disposição dos EUA em atingir seus objetivos, em interesses próprios ou de seus aliados.