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Editorial

Quanto vale um voto no ano dos milagres

10 de Janeiro de 2026 às 20:36
Cruzeiro do Sul [email protected]
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Ano eleitoral é, historicamente, o tempo dos milagres governamentais. Limites fiscais tornam-se flexíveis, prioridades se rearranjam e o discurso da responsabilidade cede espaço à lógica da conveniência política. No Brasil, essa dinâmica volta ao centro do debate diante da possibilidade de aumento no valor médio do Bolsa Família em 2026, em contraste com reajustes modestos concedidos ao salário mínimo e, por consequência direta, às aposentadorias. A questão que se impõe vai além das planilhas: qual voto tem maior peso nas urnas?

O Orçamento de 2026 enviado pelo governo federal ao Congresso Nacional reserva R$ 158,6 bilhões para o Bolsa Família. O valor é superior ao necessário para manter o número atual de beneficiários, hoje em torno de 18,9 milhões de famílias, incluindo estrangeiros como os mais de 205 mil venezuelanos que preferiram vir morar por aqui. Mantido esse patamar, o custo anual do programa seria de aproximadamente R$ 154,6 bilhões, abrindo uma diferença de cerca de R$ 4 bilhões. Essa margem permitiria elevar o valor médio mensal do benefício já a partir deste mês, fazendo com que o repasse médio ultrapasse a marca de R$ 700.

Formalmente, o governo nega qualquer reajuste. O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social afirma que não há previsão de mudança nos valores e ressalta que o programa não possui mecanismo automático de correção. Tecnicamente, a afirmação procede. Politicamente, porém, a reserva orçamentária fala por si. O espaço fiscal foi criado, o calendário eleitoral avança e a decisão, embora ainda não anunciada, depende exclusivamente de vontade política.

Atualmente, o Bolsa Família mantém o piso de R$ 600 por família, acrescido de benefícios complementares: R$ 150 por criança de até seis anos, R$ 50 por criança ou adolescente entre sete e 18 anos, além de

R$ 50 para gestantes e nutrizes, assegurando o mínimo de R$ 142 por pessoa. Essa composição faz com que o valor médio já supere o piso oficial, tendência que se intensifica com a redução recente no número de beneficiários. O debate, portanto, não é sobre a existência do programa — amplamente reconhecido no combate à pobreza extrema —, mas sobre seu uso político e seu tratamento diferenciado em relação a outras bases sociais.

Enquanto isso, o reajuste do salário mínimo foi oficializado pelo Decreto nº 12.797, publicado no Diário Oficial da União em 24 de dezembro. O valor passou de R$ 1.518 para R$ 1.621 a partir de janeiro. O percentual mal recompõe o poder de compra e pouco altera a realidade de milhões de trabalhadores e aposentados, cujos benefícios seguem atrelados ao mínimo e à lenta corrosão inflacionária.

A discrepância salta aos olhos. Trabalhadores formais, aposentados e pensionistas — que sustentam o sistema com décadas de contribuição — recebem reajustes contidos, enquanto o principal programa de transferência de renda ganha musculatura justamente às vésperas de uma eleição presidencial. Não se trata de colocar pobres contra pobres, mas de reconhecer que o Estado parece escolher onde investir politicamente.

Há, nesse movimento, um risco institucional claro. Quando políticas sociais passam a oscilar conforme o calendário eleitoral, perdem previsibilidade, estabilidade e credibilidade. Transformam-se em instrumentos de fidelização política, e não em políticas públicas de Estado. O resultado é a corrosão da confiança coletiva e a percepção crescente de que o critério não é a necessidade, mas o retorno eleitoral.

Valorizar o Bolsa Família é legítimo e necessário. Ignorar o arrocho silencioso imposto a quem vive do salário mínimo e das aposentadorias é injustificável. Um país que pretende reduzir desigualdades não pode fazê-lo escolhendo quais brasileiros merecem reajustes reais e quais devem se contentar com correções mínimas.

No fim das contas, a pergunta permanece incômoda: no Brasil do ano eleitoral, qual voto vale mais? O do cidadão que recebe a promessa ampliada às vésperas da eleição ou o do contribuinte que sustenta o sistema e recebe apenas a correção possível? A resposta não está apenas nos discursos oficiais, mas nas prioridades reveladas pelo Orçamento e elas dizem muito sobre o verdadeiro preço do voto.