Editorial
Um Brasil cansado
A nove dias do fim de 2025, é impossível negar que o Brasil atravessa um momento de fadiga coletiva que vai além da economia, da política ou das disputas ideológicas. Trata-se de um cansaço democrático profundo, silencioso e crescente, alimentado por um modelo de governança que privilegia o improviso, o curto prazo e a sobrevivência eleitoral em detrimento de projetos estruturais de país. O resultado é uma sociedade exausta, desconfiada e cada vez mais distante das instituições que deveriam representá-la.
A democracia brasileira não está sob ameaça formal, mas sofre um desgaste contínuo. Ele se manifesta na descrença generalizada, na indiferença política e na sensação de que decisões relevantes são sempre adiadas ou tomadas sem planejamento, sem transparência e sem compromisso com o futuro. Não é casual que pesquisas recentes apontem aumento da desaprovação governamental e crescimento da frustração entre jovens, trabalhadores e a classe média, segmentos que sentem, no cotidiano, o peso de escolhas públicas mal calibradas.
Esse cansaço não surge do nada. Ele é fruto de um Estado que pensa pouco adiante e governa como se o amanhã fosse um problema distante. O Brasil tornou-se especialista em políticas de curto prazo, em medidas emergenciais que se perpetuam, em soluções paliativas que resolvem manchetes, mas aprofundam desequilíbrios. Planejamento virou palavra vazia, evocada em discursos, mas raramente praticada na gestão pública.
O País gasta hoje como se o futuro fosse infinito. Orçamentos inchados, renúncias fiscais sem avaliação consistente, expansão de despesas permanentes e compromissos assumidos sem lastro financeiro revelam uma lógica perigosa: a de que sempre haverá uma próxima eleição antes de uma próxima conta. Quando o próprio governo admite dificuldades fiscais nos anos seguintes, mas insiste em acelerar gastos no presente, o recado à sociedade é claro: governa-se para o agora, não para o depois.
Esse modelo cobra seu preço. A economia até pode apresentar indicadores pontuais positivos, mas a sensação social é de estagnação. O emprego cresce, mas a renda não acompanha. O crédito existe, mas vem acompanhado de inadimplência recorde. O consumo resiste, sustentado por endividamento e não por prosperidade real. Tudo funciona no limite, como um sistema permanentemente tensionado, à espera do próximo ajuste inevitável.
Na política, o reflexo é ainda mais corrosivo. A população assiste a embates vazios, polarizações artificiais e decisões que parecem sempre desconectadas da vida real. A promessa de mudança dá lugar à repetição de velhas práticas: alianças de conveniência, distribuição de cargos, uso estratégico do orçamento e ausência de reformas estruturais. O debate público empobrece, e a democracia perde densidade.
O cansaço democrático também nasce da falta de previsibilidade. Um país que muda regras com frequência, que posterga decisões difíceis e que trata exceções como norma transmite insegurança. Investidores hesitam, empreendedores se retraem e cidadãos perdem a confiança. Sem horizonte claro, o futuro deixa de ser projeto e passa a ser ameaça.
Mais grave ainda é a naturalização desse cenário. O brasileiro, historicamente resiliente, começa a aceitar o improviso como regra, o remendo como política e a instabilidade como condição permanente. Quando a exceção vira rotina, a exigência por qualidade democrática diminui, e o espaço para soluções simplistas e discursos fáceis se amplia.
O Brasil precisa romper com essa lógica. Democracia não se sustenta apenas com eleições regulares, mas com planejamento, responsabilidade fiscal, transparência e compromisso intergeracional. Governar exige coragem para dizer não ao populismo, resistir ao imediatismo e enfrentar escolhas impopulares, porém necessárias.
Persistir no caminho do curto prazo é condenar o Brasil a um ciclo contínuo de frustração. O cansaço democrático não se resolve com slogans nem com narrativas otimistas, puras falácias. Ele exige mudança de método, de prioridades e, sobretudo, de visão de futuro. Sem isso, o Brasil continuará exausto e cada vez mais distante do país que insiste em prometer, mas raramente entrega.