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Editorial

Endividamento das famílias

05 de Novembro de 2025 às 20:30
Cruzeiro do Sul [email protected]
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O Brasil atravessa um dos piores momentos de endividamento familiar da história. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), 79,5% das famílias brasileiras estavam endividadas em outubro de 2025, sendo que 30,5% delas mantinham dívidas em atraso, o maior índice desde o início da série histórica iniciada em 2010. A cada dez lares, quase oito vivem com o orçamento comprometido. O País se tornou uma nação de devedores, e o governo federal parece assistir a esse drama com a indiferença de quem confunde consumo com prosperidade, além de esbanjar o dinheiro público além da conta.

O presidente Lula, que prometeu devolver dignidade aos mais pobres, dizendo que haveria picanha para todos, tem permitido que eles retornem ao mapa do endividamento. A política econômica de seu governo segue o velho roteiro do populismo fiscal: crédito fácil, juros altos e gasto público descontrolado. Enquanto o Planalto se orgulha de seus programas sociais populistas e com objetivos eleitorais evidentes, a realidade é que tais medidas são apenas paliativos para uma crise profunda. O brasileiro renegocia dívidas, mas não vê melhora na renda. Resolve um problema hoje e cria dois outros amanhã. Alguns, como se diz por aí, vende “o almoço para comprar a janta”.

A taxa média do cartão de crédito rotativo chegou a 451,5% ao ano em agosto, segundo o Banco Central. É uma aberração financeira, digna de um país sem regulação eficaz e sem política de proteção ao consumidor. E o governo, que tanto se diz defensor dos vulneráveis, permanece inerte diante desse abuso. As famílias, sem alternativa, recorrem ao rotativo ou ao consignado, este último cada vez mais usado por aposentados e beneficiários de programas sociais, e acabam aprisionadas em um ciclo de dívidas impagáveis.

A responsabilidade do governo Lula é direta. O descontrole das contas públicas e a insistência em aumentar gastos sem contrapartida fiscal geram desconfiança, elevam o risco-país e dificultam a queda dos juros. O Planalto culpa o Banco Central — que ontem manteve a Taxa Básica de Juros, a Selic, em 15% ao ano —, mas ignora que é a própria política fiscal frouxa que mantém o ambiente de incerteza. Em vez de promover reformas que estimulem a produtividade, desburocratizem a economia e melhorem o ambiente de negócios, o governo prefere distribuir recursos e multiplicar cargos, como se a máquina pública fosse a solução mágica para todos os males.

A retórica otimista não resiste ao teste da vida real. A inflação dos alimentos segue pressionando o orçamento doméstico; o preço da energia elétrica sobe; o transporte público encarece. A suposta “melhora do consumo” não vem do aumento de renda, mas da multiplicação de dívidas. O governo celebra indicadores de emprego, mas não revela que boa parte desses postos é informal, mal remunerada e insuficiente para garantir estabilidade financeira às famílias.

O resultado é uma economia que gira sobre o crédito e se afunda no débito. Um país onde o cartão de crédito substitui o salário e o consignado vira sinônimo de sobrevivência. O discurso de “inclusão social” do governo Lula perde força quando a inclusão se dá pela via da dívida. É o retorno ao velho modelo que infla o consumo no presente e cobra a conta no futuro, com juros, inflação e desesperança.

Combater o endividamento das famílias exige seriedade e planejamento. É preciso reequilibrar as contas públicas, reduzir o custo do crédito, fortalecer a educação financeira e criar condições reais de aumento de renda. Mas nada disso se fará enquanto o governo continuar preso ao marketing político e à lógica de curto prazo. O povo brasileiro não precisa de slogans nem de novos programas de renegociação: precisa de um Estado responsável, que inspire confiança e não empurre a população para o abismo da inadimplência.

O endividamento é hoje o espelho de um governo que perdeu o controle e o foco. Se Lula não mudar o rumo, a herança de seu terceiro mandato será a mais cruel possível: uma nação endividada, exausta e descrente de que a conta algum dia deixará de chegar. Enquanto isso, o Brasil vive um preocupante paradoxo econômico: enquanto o governo federal exalta alguns indicadores, as famílias sofrem. O governo prometeu colocar o povo no orçamento, mas o pôs nas estatísticas da inadimplência.