Editorial
Consórcio da Paz
Governadores de direita anunciaram na quinta-feira a criação do Consórcio da Paz, que consistirá na troca de experiências, ações e equipamentos para o combate ao crime organizado. O anúncio ocorreu após reunião com o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL-RJ), em meio à crise na segurança pública no Estado, após a megaoperação contra integrantes do Comando Vermelho nos complexos de favelas do Alemão e da Penha, que deixou 121 mortos, incluindo quatro policiais, na terça-feira.
A reunião ocorreu no Palácio Guanabara, sede do governo fluminense. Além do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, participaram Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais; Jorginho Mello (PL), de Santa Catarina; Eduardo Riedel (Progressistas), do Mato Grosso do Sul; Ronaldo Caiado (União Brasil), de Goiás; e a vice-governadora do Distrito Federal, Celina Leão (Progressistas). O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), participou remotamente, por chamada de vídeo. Ratinho Junior (PSD), do Paraná, não participou do encontro, mas confirmou apoio a Castro e ao Consórcio da Paz, assim como Mauro Mendes (União), do Mato Grosso.
O governador do Rio de Janeiro resumiu a essência da proposta de trabalho: “Faremos um consórcio entre os Estados, no modelo de outros consórcios que existem, para que nós possamos dividir as experiências, soluções e ações do combate ao crime organizado e da libertação do nosso povo, para que possamos compartilhar ajuda, discutir estratégias. Eu propus que a sede desse consórcio seja no Rio de Janeiro”.
O governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL-SC), sugeriu também que o consórcio possa permitir a compra de equipamentos de segurança pública de forma conjunta, como forma de diminuir os preços das compras e explicou que será feito um regulamento sobre a união dos governadores e o grupo trocará contingentes, inteligência e apoio financeiro.
O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União), disse que a tese do grupo é integrar todas as forças com base na inteligência e ações operacionais, que atenderiam os Estados de forma emergencial e imediata.
Castro recebeu apoio público de governadores após seu governo ter conduzido a operação policial mais letal da história do País, na última terça-feira, 28. O último balanço do governo fluminense confirmou 121 mortos na Operação Contenção, contra integrantes do Comando Vermelho nos complexos de favelas do Alemão e da Penha. A Defensoria Pública contabiliza 132 vítimas.
No dia anterior à reunião que consolidou o Consórcio da Paz, e um dia após a megaoperação, o governador paulista usou as suas rede sociais para manifestar apoio ao governo do Rio de Janeiro, afirmando que “o que está em jogo é o próprio sentido de soberania”.
Leia, na íntegra, o que Tarcísio de Freitas escreveu: “Temos afirmado que a atuação do crime organizado é, hoje, o principal risco ao Brasil, maior até do que o risco fiscal. O que estamos vendo no Rio de Janeiro expõe a dimensão de um problema que, há décadas, só se agrava: o avanço do tráfico de drogas e a força de um poder paralelo que afronta a lei, ameaça a vida e expulsa o Estado da vida do cidadão. Não há solução simplista. Não é mais admissível que cidadãos sejam obrigados a abandonar suas casas ou seus negócios por ordem de criminosos. Tampouco é aceitável a existência de barricadas que delimitam territórios onde traficantes se tornam soberanos, impondo e vendendo produtos e serviços que deveriam ser de livre escolha de qualquer pessoa.
Não se pode imaginar que esses criminosos não sabem o que fazem ou que são vítimas da sociedade. Eles impõem o terror, atacam agentes de segurança do Estado, escravizam pessoas e levam dor e sofrimento a inúmeras famílias. O enfrentamento exige presença, integração, inteligência e coragem. E é fundamental lembrar a dimensão territorial do problema. Clausewitz dizia que uma guerra só é vencida quando o território é conquistado, o poder militar é destruído e a vontade é subjugada.”
A atitude dos governadores conservadores, ao priorizarem a segurança da população e a defesa das instituições, ultrapassou o campo ideológico. Mostrou que, em momentos de crise, a política deve falar uma só língua: a da responsabilidade. A paz social não é bandeira exclusiva de nenhum espectro político; é obrigação de todos os gestores públicos que assumem o dever de proteger vidas e preservar a estabilidade nacional. Mas isso tem que ficar claro para o cidadão de bem.
A lição que emerge desse movimento é simples, mas profunda. Quando o País se vê ameaçado pela escalada da violência, pela ação de grupos criminosos ou pela desordem urbana, não há espaço para disputas retóricas nem para silêncios estratégicos. A omissão, neste contexto, equivale à conivência. É dever de todo governante — seja ele de direita, centro ou esquerda — somar esforços pela pacificação, pela retomada dos espaços ocupados pela criminalidade por meio da anulação dos direitos das pessoas comuns, e pela autoridade do Estado.
O episódio carioca, portanto, revela um contraste de atitudes. De um lado, a demonstração de coesão de governadores que, apesar dos problemas regionais a serem resolvidos, escolheram o diálogo e a presença institucional como resposta ao crime. De outro, o retraimento de lideranças que, por receio de se associar a temas “não populares” entre suas bases, acabaram deixando um vazio político no debate.
Num País em que a violência insiste em ditar a pauta e onde a população clama por segurança, é preciso resgatar o óbvio: governar é enfrentar a realidade, não apenas discursar sobre ela. A sociedade não espera ideologias, mas soluções. E a verdadeira lição desse episódio é que a defesa da paz deve ser, acima de tudo, um pacto nacional e não um privilégio de um lado do espectro político.
Se o Rio de Janeiro, mais uma vez, serviu de palco para o caos, que também sirva agora de exemplo para o equilíbrio. O Brasil precisa menos de polarização e mais de coragem cívica. A paz não tem cor partidária, mas tem compromisso moral.