Editorial
Álcool e juventude: uma relação perigosa
Apesar das campanhas educativas, da legislação que proíbe a venda, e da ampla divulgação dos riscos, a realidade é que o álcool continua acessível aos menores de 18 anos de forma banalizada e, em muitos casos, socialmente incentivado — até mesmo dentro de casa.
Essa permissividade mascara uma questão: o início precoce no consumo de álcool tem efeitos diretos sobre o desenvolvimento físico e emocional dos jovens. O cérebro adolescente, ainda em formação, é mais vulnerável à dependência e às alterações cognitivas provocadas pela bebida. Além disso, o álcool atua como porta de entrada para outros comportamentos de risco, como o uso de drogas ilícitas, a prática de sexo desprotegido e a direção perigosa.
A publicidade, mesmo com restrições, continua associando o álcool a momentos de alegria, conquista e liberdade, uma mensagem profundamente sedutora para quem ainda está formando sua identidade.
A 3ª edição do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo e divulgada em 10 de outubro, revelou que mais da metade da população brasileira, cerca de 56%, experimentou bebidas alcoólicas antes dos 18 anos de idade e cerca de um quarto, 25,5%, passou a beber de forma regular antes da maioridade.
Entre as bebidas mais consumidas por adolescentes de 14 a 17 anos, a cerveja aparece em primeiro lugar, com 40,5% das menções. Em seguida vêm as bebidas do tipo ice, com 31,9%; os destilados, como vodka, gim e uísque, com 30,2%; e o vinho, com 14,5%.
Os principais locais de consumo são festas, bares e, muitas vezes, a própria casa, com o incentivo ou tolerância de familiares. A influência dos amigos e do ambiente escolar também é destacada pelo estudo como um fator determinante.
Entre adolescentes de 14 a 17 anos, as meninas bebem com mais frequência. De acordo com o levantamento, 29,5% das meninas nessa faixa etária já haviam experimentado álcool, contra 25,8% dos meninos. Cerca de 21,6% das meninas relataram consumo no último ano, frente a 16,7% dos meninos. No último mês, os índices foram de 12,4% entre as garotas e 8,5% entre os garotos
Por outro lado, os episódios de consumo pesado (seis ou mais doses de álcool em uma mesma ocasião) foram mais prevalentes entre meninos (38,2%) do que entre meninas (31,2%). Isso indica que, apesar de as adolescentes beberem com mais frequência, os meninos tendem a ingerir quantidades maiores quando bebem.
Os pesquisadores alertam que o uso precoce de álcool está ligado a maiores chances de dependência na vida adulta. Outro ponto importante é a associação entre o consumo de álcool e comportamentos de risco, como dirigir sob efeito de bebida, violência, sexo desprotegido e evasão escolar.
A pesquisa ainda revelou que 7,9% dos adolescentes de 14 a 17 anos já experimentaram tabaco alguma vez na vida, o que representa cerca de 1 milhão de jovens brasileiros. Desses, mais da metade (56%) relata uso de cigarros saborizados. Além disso, 37,6% dos fumantes adolescentes afirmam ter começado a fumar antes dos 14 anos.
Entre o público mais jovem, os cigarros eletrônicos (vapes) são um ponto de atenção: 8,7% dos adolescentes de 14 a 17 anos fizeram uso de dispositivos eletrônicos para fumar no último ano, uma taxa maior do que entre adultos (5,4%). A prevalência é maior entre meninos (7,3%) do que meninas (4,1%). O levantamento também mostra que 86,3% dos usuários consideram o acesso aos dispositivos fácil ou muito fácil, apesar de sua venda ser proibida no Brasil.
O estudo, realizado com mais de 16 mil entrevistados em todo o País, mostra ainda que cerca de 75% dos jovens não tiveram nenhuma dificuldade em comprar os produtos. Além disso, 23,3% dos brasileiros que bebem e 23,5% dos adolescentes relataram já ter comprado bebidas por preço muito abaixo do normal, indicando riscos de adulteração e contrabando.
É preciso reconhecer que combater esse problema vai além da aplicação da lei. Exige políticas públicas consistentes, com foco em educação, saúde mental, fortalecimento familiar e maior a responsabilidade da sociedade. O álcool não é um brinquedo, e a juventude não pode continuar sendo o campo de experimentação de uma cultura que confunde prazer com autodestruição.