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Editorial

Número de fumantes volta a aumentar

20 de Outubro de 2025 às 20:00
Cruzeiro do Sul [email protected]
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O Brasil, por décadas, foi referência mundial no combate ao tabagismo. Políticas públicas firmes, como a proibição da propaganda de cigarros, os alertas nas embalagens e os altos impostos, reduziram significativamente o número de fumantes desde os anos 1990.

No entanto, o que parecia uma vitória consolidada começa a ruir silenciosamente. Pela primeira vez em quase duas décadas, o número de fumantes no Brasil aumentou, quebrando uma tendência histórica de queda. De acordo com uma pesquisa com dados preliminares divulgada pelo Ministério da Saúde, a proporção de adultos fumantes nas capitais brasileiras saltou de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024. Um crescimento de 25% em apenas um ano.

A Organização Mundial da Saúde considera o tabagismo uma pandemia, pois é a principal causa de morte evitável no mundo, com aproximadamente 8 milhões de óbitos por ano. Mais de 50 tipos de doenças podem ser causadas pelo cigarro, principalmente as cardiovasculares, as respiratórias e também cerca de 10 tipos de cânceres.

Os dados alarmantes reacenderam o alerta entre autoridades de saúde, principalmente pelo fato dessa crescente estar relacionada, provavelmente, à popularização de novos produtos, a exemplo dos cigarros eletrônicos, que atraem, especialmente os mais jovens.

A OMS já emitiu alerta aos países membros dando conta do aumento do uso de vapes entre adolescentes, estimando que pelo menos 15 milhões de jovens entre 13 e 15 anos utilizem esses dispositivos em todo o mundo.

Portanto, e uma preocupação real também aqui no Brasil. Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) apontou que um em cada nove adolescentes brasileiros afirma que usa cigarro eletrônico. O estudo ouviu cerca de 16 mil pessoas de 14 anos ou mais, de todas as regiões do País. Segundo o levantamento, a quantidade de usuários jovens que usam cigarro eletrônico já é cinco vezes o total daqueles que fumam o cigarro tradicional. A pesquisa utilizou dados de 2022 a 2024 do 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas. Apesar de o produto ser proibido no Brasil, é muito fácil comprar o aparelho pela internet, o que amplia o acesso.

E o que fazer a partir de agora? É preciso uma reação com a mesma determinação que marcou o início da política antitabagista brasileira. Isso significa endurecer a fiscalização, atualizar a legislação para incluir os dispositivos eletrônicos e retomar campanhas educativas voltadas às escolas e famílias. O combate ao tabagismo não é uma pauta ultrapassada, mas uma urgência renovada diante das novas estratégias de sedução.

Em pleno século 21, quando a informação é acessível e as campanhas de saúde pública estão mais abrangentes do que nunca, é espantoso constatar que o hábito de fumar ainda resiste e, em alguns grupos, até cresce. O cigarro, outrora símbolo de status e rebeldia, transformou-se em um retrato de descuido com a própria vida e, não raramente, com a dos outros.

O argumento de que fumar é uma escolha pessoal perde força diante do impacto coletivo dessa prática. O fumo passivo continua vitimando inocentes, inclusive crianças, que respiram o ar contaminado por quem decidiu ignorar os alertas. Além disso, o custo social é imenso: o sistema público de saúde gasta bilhões anualmente tratando doenças associadas ao tabaco, como câncer, enfisema e problemas cardiovasculares. A conta, como sempre, é paga pela sociedade.

Para cada R$ 1 de lucro da indústria do tabaco, o Brasil gasta R$ 5 com doenças causadas pelo fumo, comforme mostrou, em maio, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) e o Ministério da Saúde, a partir do estudo A Conta que a Indústria do Tabaco Não Conta.

O documento mostra que cada R$ 156 mil de lucro de empresas de tabaco estabelecidas no Brasil com a venda de cigarros legais foi equivalente a uma morte por doenças cardíacas isquêmicas, acidente vascular cerebral (AVC), doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) ou câncer de pulmão atribuível ao tabagismo.

Se o país se orgulha de ter sido um exemplo global no enfrentamento ao fumo, não pode agora assistir, inerte, à sedução de uma nova geração. A juventude brasileira merece políticas que a protejam, não armadilhas disfarçadas de modernidade.