Editorial
O brasileiro e o café
O café é uma paixão nacional, presente em 98% dos lares brasileiros e sendo a segunda bebida mais consumida no País, perdendo apenas para a água, segundo informa a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). O hábito de tomar um “cafezinho” tornou-se um ritual social enraizado, associado a momentos de acolhimento, afeto e produtividade e ganhou ainda mais charme a partir da evolução do produto, com o café gourmet — ou especiais —, com melhor qualidade, aroma e sabor, e com o advento da praticidade das cápsulas e cafeteiras domésticas.
O problema é que, de uns tempos para cá, o preço do café provocou uma mudança de hábito entre os brasileiros. Prova disso é o resultado da pesquisa “Café — Hábitos e Preferências do Consumidor (2019—2025)”, encomendada pela Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) e produzido pelo Instituto Axxus, em parceria com o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e a Unicamp, revela um cenário desconfortável: 24% dos consumidores reduziram a ingestão da bebida em 2025, maior índice de retração desde o início da série. Foram ouvidas 4.200 pessoas de todas as regiões do País, com estratificação por gênero, renda, idade e localidade, em setembro passado.
A comparação histórica é reveladora. Em 2019, a mesma pesquisa apontava crescimento moderado no consumo interno, acompanhando a tendência de valorização dos cafés especiais e da expansão das cafeterias urbanas. Em 2021 e 2022, mesmo em meio às turbulências da pandemia, o hábito se manteve resiliente, com apenas 8% a 10% relatando redução. Já em 2023, o número dos que afirmavam ter aumentado o consumo ainda era expressivo — cerca de 16%, segundo a Abic. Dois anos depois, essa fatia desabou para 2%, ao passo que a redução saltou para um quarto dos entrevistados.
O que mudou? O custo. A escalada de preços do café, impulsionada por choques climáticos em lavouras, aumento de insumos e especulação internacional, tornou-se insustentável para a mesa do brasileiro. A consequência aparece na pesquisa: mais consumidores migrando para marcas mais baratas, cortes no número de xícaras diárias e queda na parcela dos que bebem seis ou mais cafés por dia, de 29% em 2023 para 26% em 2025.
O recuo não é apenas econômico, mas cultural. O café, antes intocável na rotina nacional, começa a se transformar em símbolo da perda de poder de compra. Quando o brasileiro abre mão de sua xícara, não é por vontade, mas por necessidade. E essa mudança de hábito denuncia a precarização silenciosa da renda, capaz de mexer até com um dos rituais mais sólidos da vida cotidiana.
O setor cafeeiro, acostumado a exibir números robustos no mercado interno, terá de enfrentar dilemas. Apostar apenas em cafés premium, voltados à elite consumidora, pode reforçar a exclusão. Por outro lado, insistir em reduzir qualidade para baratear corre o risco de degradar a imagem do café brasileiro, construído ao longo de séculos como referência mundial. O equilíbrio entre preço justo e manutenção da qualidade será decisivo.
Do ponto de vista político e social, o dado exige reflexão. O recuo no consumo de café funciona como um termômetro do empobrecimento estrutural do País. Se o brasileiro corta no café, é inevitável supor que cortes ainda mais severos ocorrem em outros itens da alimentação. Trata-se, portanto, de um alerta não apenas para a indústria, mas para o governo, que insiste em pintar um quadro de recuperação econômica que não chega ao cotidiano da população.
A queda no consumo não significa o fim da cultura do café no Brasil. Pelo contrário, pode ser o momento de repensar estratégias, valorizar a produção sustentável, criar incentivos que mantenham a bebida acessível e reafirmar sua centralidade cultural. O risco é ignorar o sinal. Porque quando até o café começa a faltar, não é só a mesa que esvazia, é a confiança na estabilidade da vida cotidiana que se perde.
Para a Abic, a responsabilidade do governo em relação ao preço do café é multifacetada, incluindo políticas de apoio à cafeicultura, como a gestão de estoques e incentivos financeiros para os produtores, bem como medidas para amortecer a volatilidade dos preços através de mecanismos como o Fundo de Defesa da Economia Cafeeira. O governo também atua na regulação do mercado e na promoção de práticas sustentáveis, respondendo a fatores como a crise climática, que afeta a oferta e demanda do café. E, nesse quesito está faltando empenho.
E a coisa pode piorar ainda mais, ou seja, poderá haver uma retração ainda maior no consumo, já que a própria Abic já informou sobre mais um acréscimo de até 15% nos preços do café, que serão repassados aos supermercados em poucos dias. A justificativa foi a alta nos custos com a compra da matéria-prima.