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Editorial

Descaso com as Forças Armadas

30 de Setembro de 2025 às 21:00
Cruzeiro do Sul [email protected]
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Nos últimos meses, os comandos das três Forças Armadas brasileiras — Marinha, Exército e Aeronáutica — não estão conseguindo esconder as suas respectivas insatisfações com o governo Lula, a quem estão subordinados. Eles têm reivindicado, abertamente — inclusive em audiências públicas — mais dinheiro para investir em projetos estratégicos que garantam a soberania nacional, para que outros não sejam interrompidos e para que equipamentos importantes não fiquem obsoletos. E está muito perto do sucateamento chegar a um nível pra lá de crítico.

Ontem, aos membros da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado Federal, o próprio ministro da Defesa de Lula — José Múcio Monteiro Filho — apontou o risco da defasagem tecnológica e ressaltou que o Brasil é, hoje, o país da América do Sul que destina o menor percentual do PIB (Produto Interno Bruto) para a Defesa.

Segundo Mucio, a Defesa brasileira convive com restrições tão severas que ameaçam a soberania nacional. “Não somos nada em relação ao tamanho do País”, disse e reclamou que o governo investe apenas 1,04% do PIB em defesa e que o ideal seria no mínimo 2%. “Temos bastante equipamento, mas não temos dinheiro para combustível nem para peças”, informou. “O resultado é que adiamos contratos e pagamos juros que equivalem a submarinos e aviões inteiros”, expôs.

O ministro lulista ainda fez um alerta grave aos senadores ao avisar que o Brasil não tem o mínimo de infraestrutura bélica para manter um conflito com nenhum país que seja, pois falta combustível, falta peça, falta munição. “Temos 30 dias de munição!”, informou.

O desabafo de Mucio revela que hoje o Brasil não tem a mínima condição de cuidar das fronteiras seja por terra, mar ou ar. Há uma vulnerabilidade por falta de interesse do governo Lula em investir na Defesa Nacional. Há, por exemplo sérios problemas na chamada fronteira seca de Mato Grosso do Sul com o Paraguai e a Bolívia, onde há intensa entrada de contrabando e drogas. São mais de 700 quilômetros de fronteira seca, que hoje estão dominados por facções e pelo tráfico.

O ministro destoa dos demais integrantes do primeiro escalão do governo ao expor uma realidade da atual gestão. Com base nas revelações de Mucio, pode-se afirmar que o Brasil atravessa um momento delicado em sua política de defesa. Embora o discurso oficial pregue soberania e presença no cenário internacional, a prática tem revelado o oposto: o Ministério da Defesa segue à margem das prioridades do governo Lula. O subfinanciamento crônico compromete não apenas a modernização das Forças Armadas, mas também a própria capacidade do País de proteger suas fronteiras, seus recursos naturais e sua posição geopolítica.

Não se trata de militarizar a agenda nacional, mas de reconhecer que um país com dimensões continentais não pode conviver com equipamentos obsoletos, bases subutilizadas e defasagem tecnológica gritante. Enquanto potências regionais e globais avançam em programas de defesa cibernética, inteligência artificial e renovação de frota, o Brasil insiste em adiar decisões estruturais, empurrando para o futuro uma conta que só cresce.

A falta de investimentos revela ainda um paradoxo político: o governo aposta em programas sociais, mas ignora que segurança e defesa também são pilares de cidadania e desenvolvimento. Sem fronteiras protegidas, a Amazônia fica exposta; sem monitoramento adequado, a costa marítima brasileira torna-se vulnerável; sem pesquisa em defesa, a indústria nacional perde competitividade.

O descaso fragiliza não apenas a imagem das Forças Armadas, mas também a credibilidade internacional do Brasil. Como pode o País aspirar a assento permanente no Conselho de Segurança da ONU se não consegue garantir o mínimo de prontidão militar? A diplomacia, por mais bem articulada que seja, carece de sustentação quando não há musculatura estratégica por trás.

É urgente que o governo reveja suas prioridades. O Ministério da Defesa não pode continuar sendo tratado como um coadjuvante no orçamento federal. Investir em defesa é investir em soberania, inovação e segurança para as próximas gerações. Ignorar esse fato é condenar o Brasil à vulnerabilidade permanente e essa conta, cedo ou tarde, cobra-se em moeda cara.