Editorial
Conta que insiste em não fechar
A semana fecha com duas notícias preocupantes que vêm do setor econômico nacional e que irão impactar o custo de vida do brasileiro. Uma delas é a prévia da inflação oficial de setembro, que ficou em 0,48%, puxada, principalmente, pelo preço da energia elétrica. Em 12 meses, o IPCA-15 acumula 5,32%, segundo dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados na quinta-feira.
Os dados prévios confirmam que a inflação anual se mantém acima da meta do governo de 3% ao ano com tolerância de 1,5 ponto percentual (p.p.) para mais ou para menos, ou seja, indo no máximo a 4,5%.
A justificativa pela alta foi atribuída à conta de luz, principalmente em razão da “devolução” do Bônus Itaipu, desconto na conta de agosto que beneficiou 80,8 milhões de consumidores. Em setembro, sem o bônus, a fatura fica mais alta na comparação com o mês anterior. Além disso, a conta de luz ainda sofre influência da vigência da bandeira tarifária vermelha patamar 2, que adiciona R$ 7,87 na conta de luz a cada 100 Kwh consumidos enquanto durar a medida. A cobrança extra é para custear usinas termelétricas em tempos de baixa nos reservatórios das hidrelétricas, seguindo determinação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel — autarquia do governo federal, vinculada ao Ministério de Minas e Energia, responsável por regular, fiscalizar e promover a geração, transmissão, distribuição e comercialização de energia elétrica).
O IPCA-15 tem basicamente a mesma metodologia do IPCA, a chamada inflação oficial, que serve de base para a política de meta de inflação do governo. A diferença está no período de coleta de preços e na abrangência geográfica. Na prévia, a pesquisa é feita e divulgada antes mesmo de acabar o mês de referência. Em relação à divulgação atual, o período de coleta foi de 15 de agosto a 15 de setembro. Ambos os índices levam em consideração uma cesta de produtos e serviços para famílias com rendimentos entre um e 40 salários mínimos. Atualmente, o valor do mínimo é R$ 1.518.
O mercado financeiro projeta que o IPCA fechará o ano em 4,83%, portanto acima da meta. E é essa informação que explica porque o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central informa que a Selic (taxa básica de juros) permanecerá por um longo período em 15%.
A outra notícia vem da Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic) que já mandou avisar o consumidor que o preço do café deve voltar a subir nos próximos dias. O presidente da entidade, Pavel Cardoso, informou que é possível que haja um acréscimo entre 10% e 15% nos preços do produto a serem repassados aos supermercados, já que os custos com a compra da matéria-prima foram alavancados.
A Abic reconhece que a alta nos preços foi bem expressiva, fazendo com que alguns tipos de café, como o solúvel, acumulassem aumentos de até 50,59% ao longo de 2025, causando uma retração no consumo do produto no mercado brasileiro. Houve queda de 5,41% nas vendas de café no mercado brasileiro, entre os meses de janeiro e agosto deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado. Em números absolutos, as vendas caíram de 10,11 milhões de sacas para 9,56 milhões de sacas neste ano.
Como todo o exposto, há a permissão de uma conclusão nada otimista: O mercado financeiro vive dias de apreensão interna combinado com as pressões externas, choques setoriais e reajustes pontuais. Assim, o consumidor brasileiro é quem fica em uma posição delicada, reforçando a sensação de que o custo de vida não dá trégua.
O mercado reforça a leitura de que o ciclo de cortes de juros do Banco Central vai ser mesmo cauteloso e lento. Para o consumidor, a equação é cruel: a inflação pode não aparecer em índices devastadores, mas a sensação real é de aperto constante no orçamento doméstico. A cada visita ao supermercado, a percepção é de que o salário compra menos. No caso do café, um produto quase cultural no Brasil, o impacto é ainda mais visível.
O próprio mercado também sente. Indústrias e redes varejistas precisam repassar custos, mas o fazem com cautela para não perder demanda. O risco é de um ciclo perverso: preços altos derrubam o consumo, que por sua vez desacelera a economia, criando um dilema para formuladores de política monetária e agentes privados.
No fim das contas, o Brasil continua refém de choques pontuais que, somados, corroem o poder de compra e mantêm o mercado em permanente estado de alerta. O café e a energia elétrica, nesse caso, são apenas a ponta mais amarga de uma conta que insiste em não fechar.