Editorial
Vem aí mais medidas populistas
Após a sua passagem pela Assembleia Geral da ONU 2025, onde proferiu o discurso de abertura, como manda a tradição, o presidente Lula é esperado hoje em Brasília e muitas decisões estão na agenda. Uma delas é a nomeação do deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP) para a Secretaria-Geral da Presidência. Com status de Ministério, a pasta cuida das articulações com os movimentos sociais e Lula avalia que o governo precisa dar mais atenção a essa área, principalmente no ano eleitoral de 2026, quando planeja disputar novo mandato. A informação sobre o convite a Boulos foi dada pela Folha de S. Paulo e confirmada pelo Estadão. Para entrar no governo, Boulos se comprometeu a não concorrer à reeleição como deputado, no ano que vem.
Com Boulos em seu Ministério, a ambição de Lula visando 2026 fica ainda mais evidente. Não à toa, a partir de agora passa a ampliar o uso da máquina pública em benefício próprio e o anúncio de medidas populistas, suas especialidades.
No fim do ano passado, Lula anunciou a isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil. Apesar da medida depender de aprovação do Congresso, a matéria, que tramita pela Comissão de Economia do Senado avança a passos largos. A ordem é valer a partir de 2026, ano eleitoral.
Ele também ampliou a distribuição de gás de cozinha, a partir do ano que vem, para atender 15,5 milhões de famílias carentes, a um custo de R$ 5 bilhões a serem pagos pelos demais contribuintes e, ainda determinou a isenção da conta de luz para até 60 milhões de pessoas, ou possíveis votos. O presidente populista prepara um programa para permitir a reforma de imóveis ou “a construção de um puxadinho”, como disse.
Mas as ideias “visionárias” não param. A revista Veja apurou junto a fontes do Planalto, que o governo lulista prepara mais medidas populistas ou interesseiras. A secretária-executiva da Casa Civil, a petista Miriam Belchior recebeu de Lula a missão de encontrar com a equipe econômica um “espaço” no Orçamento — já estourado — que permita ao governo aumentar o valor do benefício do Bolsa Família e implantar um programa de passe livre no transporte urbano. “Essas ações são consideradas trunfos para acelerar o processo de recuperação da popularidade do presidente”, diz a publicação paulistana.
Em busca da popularidade perdida em razão do governo temerário que faz, das poucas ações efetivas para baixar a inflação — que mantém a taxa de juros entre as mais altas do mundo (atualmente está em 15% ao ano e, segundo o Copom/Banco Central, deve permanecer assim por um período prolongado) —, para baixar os preços dos alimentos e para cessar as incertezas junto ao mercado produtor de riquezas e empregos, Lula prefere “presentear” parte da população com o dinheiro público. Parece mais fácil.
Sua aprovação o desagrada. Segundo pesquisa Genial/Quaest divulgada no dia 17 de setembro, 51% dos entrevistados desaprovam a forma Lula de governar, enquanto 46% aprovam e 3% não souberam ou não responderam. Os números são muito parecidos aos apurados em agosto.
A avaliação também é estável: 38% consideram o trabalho de Lula negativo, ante 39% na rodada anterior; 31% como positivo, mesmo porcentual da última pesquisa; e 28% como regular (eram 27%). Não sabem ou não responderam os mesmos 3% de agosto.
Na economia, não houve melhoras significativas sobre a percepção dos preços dos alimentos nos mercados: 61% avaliam que eles subiram, 20% que ficou igual e 18% que caiu. Há um mês, o resultado era 60%, 20% e 18%, respectivamente.
A Quaest entrevistou 2.004 pessoas com 16 anos ou mais entre os dias 12 e 14 de setembro. A margem de erro é de 2 pontos porcentuais para mais ou para menos e o nível de confiança é de 95%.
Como vimos, Lula tem recorrido cada vez mais a medidas de forte apelo popular para tentar frear a queda de aprovação e reposicionar sua imagem de líder próximo ao povo, mesmo se mantendo distante dele. O movimento carrega um claro viés eleitoral. O risco é que, ao apostar no populismo como estratégia, Lula pode fragilizar ainda mais a credibilidade de sua gestão e aumentar o comprometimento da responsabilidade fiscal. O Estado não pode ser usado como palanque. O País precisa de planejamento de longo prazo, não de soluções imediatistas embaladas em propaganda oficial. O eleitor, cada vez mais atento, terá de decidir se comprará mais uma vez a velha promessa de que basta distribuir para crescer ou mostrar que realmente não existe “almoço grátis”.