Editorial
As amigas condenadas de Lula
Em visita a Buenos Aires, capital da Argentina, para participar da 66ª Cúpula do Mercosul — e assumir a presidência do bloco sul-americano —, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aproveitou para visitar, ontem (3), a ex-presidente argentina, Cristina Kirchner, que está em prisão domiciliar, condenada por corrupção. Logicamente que ela nega as acusações e diz ser vítima de perseguição política. Em publicação nas redes sociais, Lula afirmou que Kirchner está bem, “com força e gana de luta”.
“Além de prestar minha solidariedade a ela por tudo que tem vivido, desejei toda a força para seguir lutando com a mesma firmeza que tem sido a marca de sua trajetória na vida e na política ... tenho por Cristina uma amizade de muitos anos que vai muito além da relação institucional. Um carinho e afeto de amigos, companheiros de campo político e de ideais de justiça social e combate às desigualdades”, escreveu Lula.
No último dia 10 de junho, a Suprema Corte da Argentina manteve a sentença que condenou a ex-presidente a seis anos de prisão por corrupção no período em que esteve no comando do país. A decisão proíbe, ainda, que ela ocupe cargos públicos de forma vitalícia.
Dias antes, ela anunciou seus planos de concorrer ao Congresso nas eleições legislativas de setembro em um distrito importante da província de Buenos Aires, devido ao número de eleitores e por ser um reduto do peronismo, o movimento de centro-esquerda do país.
Kirchner, 72 anos, cumpriu dois mandatos como presidente de 2007 a 2015 e foi vice-presidente de 2019 a 2023. Ela foi condenada em um caso conhecido como Vialidad, no qual foi acusada de favorecer o empresário Lázaro Báez ao conceder-lhe projetos de obras públicas na Patagônia.
Em julho de 2019, quando era candidato à presidência da Argentina, o ex-presidente Alberto Fernández também visitou Lula na prisão, em Curitiba. Fernández governou a Argentina de dezembro de 2019 a dezembro de 2023, tendo Cristina Kirchner como vice. Da mesma forma que Cristina, Lula alegava perseguição política para a sua condenação.
Enquanto isso, aqui no Brasil, por decisão do próprio Lula, Nadine Heredia Alarcón, esposa do ex-presidente do Peru Ollanta Humala, desfruta de asilo diplomático, desde o mês de abril deste ano, na companhia de seu filho Samir Ollanta Humala Heredia, que é menor de idade.
Nadine foi condenada pelo Terceiro Juizado Criminal de Lima, capital peruana, a 15 anos de detenção por lavagem de dinheiro, sob acusação de terem recebido valores ilícitos para campanha política, em 2011, em um caso envolvendo a construtora brasileira Odebrecht, que atua há décadas no país vizinho.
Antes da divulgação das sentenças, Nadine e Samir se abrigaram na embaixada do Brasil em Lima, onde obtiveram a concessão de asilo diplomático, nos termos da Convenção de Asilo Diplomático, da qual ambos os países são parte.
“Nos termos do Artigo XII da mencionada Convenção, o governo do Peru outorgou as garantias e o salvo conduto correspondente, permitindo que a senhora Alarcón e o seu filho pudessem deixar o território peruano, com destino ao território brasileiro. A senhora Alarcón e o seu filho passarão, agora, pelos procedimentos necessários para sua regularização migratória no Brasil”, informou o Itamaraty.
Já o ex-presidente peruano Ollanta Humala (2011-2016) decidiu cumprir a condenação em seu país. Ele está preso em uma base policial especialmente construída para abrigar os ex-presidentes do Peru, onde Alejandro Toledo e Pedro Castillo estão atualmente detidos.
De acordo com a promotoria, Humala e esposa teriam aumentado suas riquezas pessoais graças à “contribuição ilícita” feita pela Odebrecht, agora conhecida como Novonor, e pela OAS, outra empreiteira brasileira. Os recursos eram destinados à sua campanha eleitoral.
Como se vê, Lula tem apreço às amigas condenadas pela Justiça de seus respectivos países. Nota-se que o motivo que levou Nadine e Cristina à condenação é o mesmo: corrupção. Igualmente, percebe que Lula considera os desvios, em ambos os casos, como “perseguição política”. Como disse Waan Oliver, autor contemporâneo de textos reflexivos: “os iguais se reconhecem e se atraem. Não dá pra enganar a natureza. Todo mundo reconhece quando algo é semelhante ao seu eu”.