Editorial
Os limites da democracia
O Brasil deve valorizar a democracia, a liberdade de expressão, de imprensa e de livre manifestação política
Nada justifica a violência. Nada justifica a invasão e a destruição de prédios e de bens públicos. Nada justifica o vandalismo a obras de arte e a relíquias que fazem parte da nossa história e da história da Humanidade. A Fundação Ubaldino do Amaral, mantenedora do Jornal Cruzeiro do Sul, repudia com veemência todos os excessos cometidos durante as manifestações ocorridas, domingo (8), na Praça dos Três Poderes, em Brasília.
Entendemos que a população tem o direito democrático de se manifestar, de protestar e de exigir mudanças e muita transparência nos atos públicos, mas esse direito tem limites. Limites que não podem superar o ordenamento jurídico vigente no país. A divergência de pensamentos é salutar na construção de uma Nação, mas atos que ferem as leis devem ser apurados, julgados e punidos.
O importante, em todos os casos, é saber responsabilizar, individualmente, cada um dos envolvidos, sem generalizar as ações por ventura criminosas praticadas durante os atos violentos ocorridos na Capital Federal.
A situação é um pouco parecida com uma partida de futebol. Torcedores das mais diversas tendências e origens vão ao estádio para incentivar a sua equipe. Nas arquibancadas, há torcedores de todas as matizes. Desde a família reunida para acompanhar a partida até as mais violentas torcidas organizadas. Todos estão lá com um único objetivo, mas os métodos e a forma de torcer é bem diferente.
Quando chega o final do jogo, e os torcedores se sentem prejudicados pelo resultado, as reações podem ser as mais diversas. Uma ala da torcida, por exemplo, decide invadir o campo, agredir o juiz e os adversários e causar o caos. Não é justo que todos no estádio, torcedores do mesmo time, paguem criminalmente pela atitude de uns poucos baderneiros. Faz parte do nosso ordenamento jurídico que cada um pague na medida que de sua participação no ato.
As autoridades policiais e judiciais, em Brasília, vão precisar de muito discernimento para avaliar como foi a ação de cada um durante os protestos e a depredação dos prédios públicos. Um cidadão que estava lá unicamente para uma manifestação pacífica não pode ser criminalizado por atitudes terroristas praticadas por grupos armados com bombas e outros artefatos, que lá se encontravam única e exclusivamente para produzir confusão e baderna. O simples fato de estar presente na manifestação não caracteriza crime algum.
A situação ocorrida na praça dos Três Poderes foi grave e precisa ser apurada com muito cuidado. A tecnologia existente atualmente vai poder ajudar a elucidar todos os fatos e como cada um dos presentes agiu durante os atos violentos. As trocas de mensagens, os vídeos, a identificação de cada um, tudo fica registrado em câmeras e celulares. Só é preciso garantir que haja transparência nessa investigação para que os verdadeiros culpados e os verdadeiros mandantes sejam devidamente indiciados.
Enquanto esse trabalho técnico e científico ocorre, o acampamento montado em frente ao Quartel General do Exército e que serviu de base para os manifestantes que ali permaneceram, por semanas, pacificamente e respeitando a lei e a ordem, começa a ser desmobilizado por ordem do Supremo Tribunal Federal.
Cerca de 1.500 manifestantes, que estavam acampados lá, começaram a ser ouvidos pelas autoridades policiais. Cada um vai ter a chance de explicar suas reais intenções durante os protestos. Essa oitiva pode ajudar a esclarecer muitos fatos e permitir que a investigação tome o rumo certo.
A nossa expectativa e torcida é que o novo Congresso Nacional tome posse e consiga analisar todos os meandros da situação vigente.
O Brasil deve valorizar a democracia, a liberdade de expressão, de imprensa e de livre manifestação política. O povo deve usar essas prerrogativas para reivindicar seus direitos e exigir mudanças, só não é possível tolerar os abusos registrados no último domingo.
Essas atitudes ultrapassaram, e muito, os limites da sensatez. Nada pode justificar tamanha violência e destruição. Só devemos tomar o devido cuidado para não ferir um dos principais preceitos do nosso ordenamento jurídico: ‘é melhor absolver mil culpados do que condenar um inocente‘. Sob essa perspectiva é que as manifestações de domingo devem ser julgadas. E que os responsáveis paguem na medida de suas reais atitudes.