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Editorial

Um dilema que se avizinha

Com o risco fiscal na mira, as expectativas de inflação para os próximos anos voltaram a se deteriorar

27 de Dezembro de 2022 às 00:01
Cruzeiro do Sul [email protected]
A elevação de 0,1% do PIB no terceiro trimestre colocou o Brasil na 28ª colocação no ranking de crescimento para o período
A elevação de 0,1% do PIB no terceiro trimestre colocou o Brasil na 28ª colocação no ranking de crescimento para o período (Crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Desde que foi divulgado o resultado das eleições presidenciais, o mercado financeiro, no Brasil, entrou numa verdadeira montanha russa. O sobe e desce do dólar e das ações na Bolsa de Valores mostram um caminho ainda de incertezas pela frente. O anúncio da futura equipe econômica e a PEC da Transição, discutida, negociada e aprovada pelo Congresso Nacional, serviram para acirrar ainda mais os ânimos. A situação só começou a se acalmar depois que a Câmara dos Deputados reduziu o tamanho do cheque em branco dado ao novo Governo.

Mesmo assim a preocupação ainda é grande. Com o risco fiscal na mira, as expectativas de inflação para os próximos anos voltaram a se deteriorar é o que aponta o último Relatório de Mercado Focus divulgado ontem (26).

Os analistas financeiros estão bastante preocupados com o aumento de gastos, fora do teto, aprovado para 2023. Cada novo nome anunciado para compor o ministério apresenta uma série inédita de promessas, sem que fique claro de onde sairá o dinheiro. E ministério é o que não falta. Devem ser 37 depois de aprovada a reforma administrativa, no início do ano que vem.

As dúvidas sobre a sustentabilidade fiscal provocaram um aumento na projeção para o IPCA -- índice de inflação oficial -- de 2023, que passou de 5,17% para 5,23%, contra 5,02% há um mês. O indicador para 2024 também aumentou, de 3,50% para 3,60%, após oito semanas de estabilidade. Já o IPCA de 2025 avançou pela terceira semana seguida, agora de 3,10% para 3,20%. Esses números mostram que a média dos analistas econômicos já aposta num descontrole financeiro do Governo nos próximos anos.

Um contraste com o ano de 2022, que começou com pessimismo e termina com as contas arrumadas. O IPCA deve fechar o ano em queda, na casa de 5,64%. Um número e tanto diante das apostas de inflação de dois dígitos. Isso tudo num país que saiu de dois anos de pandemia, que teve toda sua cadeia produtiva desarranjada por conta das diversas medidas restritivas, e que enfrentou uma guerra que já dura mais de 300 dias e mudou as relações financeiras de todo o mundo. O Brasil decidiu trocar um especialista em economia, com reconhecimento mundial, por um neófito mais acostumado a cumprir ordens, por mais absurdas que sejam, do que realmente pensar no que é melhor para o País como um todo. 2023 deve ser marcado por muitos solavancos, que vão afetar diretamente o bolso de boa parte da sociedade.

A prometida alta de consumo, com a injeção de dinheiro no bolso das camadas mais pobres da população, parece não ter gerado simpatia aos olhos dos estudiosos da nossa economia. Se o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 2022 permanece estável, na casa de 3,04%, o de 2023 ainda precisa de uma boa dose de vitamina. A expectativa é que fique abaixo de 0,8%. O PIB de 2024 também não é nada animador: 1,5%. Se os analistas estiverem certos, isso significa que teremos um país com a economia praticamente estagnada na primeira metade do Governo Lula. Isso somado ao excesso de gastos acima da arrecadação deve provocar um desastre total.

O Brasil passou os últimos quatro anos arrumando a casa. Uma série de medidas impopulares, como a Reforma da Previdência, precisaram ser adotadas para preservar os ganhos das gerações futuras. Marcos importantes, como o do Saneamento, foram introduzidos no nosso sistema jurídico para determinar quem é responsável pelo que e, além disso, atrair investimentos. Foi um trabalho duro, penoso, que custou muito à imagem do atual Governo. Esse era o remédio que o Brasil precisava para voltar aos trilhos e a sociedade compreendeu. Uma nova fase vem pela frente e a impressão que se tem, nos primeiros discursos, antes mesmo da posse, é que vamos mais uma vez trocar o tratamento eficiente pelos placebos que dão a falsa sensação de bem-estar, mas que, no fundo, só fazem a doença aumentar.