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Mercado continua atento à transição

A partir de janeiro, as consequências dos erros e dos acertos serão sentidos por 212 milhões de brasileiros de carne e osso

30 de Novembro de 2022 às 00:46
Cruzeiro do Sul [email protected]
Para novembro, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15), que é a prévia da inflação, também teve aumento de 1,17%
Para novembro, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15), que é a prévia da inflação, também teve aumento de 1,17% (Crédito: FÁBIO ROGÉRIO / ARQUIVO JCS (9/4/2021))

Enquanto a equipe de transição do novo governo bate cabeça para, pelo menos, conseguir montar um esboço do caminho pelo qual pretende conduzir o País até 2026, a economia vai sofrendo com os solavancos provocados pela frustração de cada pronunciamento dos inúmeros porta-vozes que surgem seguidamente sob os holofotes da mídia. A cada fala, um reflexo negativo no mercado.

Desde 1º de novembro, ou seja, em menos de um mês, o Ibovespa — principal índice da bolsa de valores de São Paulo — caiu pouco mais de 4%. Felizmente, o significativo ganho acumulado nos meses anteriores tem sido suficiente, por enquanto, para manter a taxa anual no terreno positivo, na casa dos 6%, conforme os dados do fechamento desta terça-feira (29).

Até segunda-feira (28), no entanto, o baque era bem maior, próximo dos 6,25%. A recuperação se deu graças à decisão do governo chinês de flexibilizar as medidas de restrição para controle da Covid-19.

Da mesma forma, a percepção de que o governo eleito deixou para pensar sobre o que fazer com o País depois do pleito fez a cotação do dólar disparar 7,4% em apenas três semanas, passando de R$ 5,0557 em 4 de novembro para R$ 5,4100 no último dia 25.

Nesta terça-feira (29), o real recebeu impulsos importantes do cenário internacional que fizeram a moeda norte-americana retroceder à marca de R$ 5,30. Não é segredo para ninguém que tanto a cotação do dólar como o comportamento do Ibovespa dependem também de inúmeros acontecimentos internacionais, porém, é fato que o mercado segue atento às questões domésticas, especialmente ao formato da PEC da Transição e à escolha da equipe econômica do próximo governo.

O termômetro mais abrangente e atualizado do cenário da economia nacional, o Boletim Focus de segunda-feira (28), demonstra de maneira mais clara a preocupação com o que pode estar por vir. De acordo com a pesquisa do Banco Central (BC)— que leva em consideração a expectativa das instituições financeiras para os principais indicadores econômicos —, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2022 deverá subir de 5,88% para 5,91%. Para 2023, a projeção da inflação ficou em 5,02%.

Os dois anos seguintes 2024 e 2025, as previsões são de inflação em 3,5% e 3%, respectivamente. Dessa maneira, a previsão para 2022 superou o teto da meta de inflação que deve ser perseguida pelo BC. Definida pelo Conselho Monetário Nacional, a meta é de 3,5% para este ano, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto
percentual para cima ou para baixo.

Ou seja, o limite inferior é de 2% e o superior de 5%. Da mesma forma, a projeção do mercado para a inflação de 2023 também está acima do teto previsto. Para 2023 e 2024, as metas fixadas são de 3,25% e 3%, respectivamente, também com os intervalos de tolerância de 1,5 ponto percentual.

Assim, para 2023 os limites são 1,75% e 4,75%. Avaliando a inflação real, aquela que já pesa no bolso dos brasileiros, vemos que o índice de outubro subiu 0,59%, após três meses de deflação. Conforme economistas que acompanham o mercado, a motivação da alta repentina teve ligação direta com os resultados das pesquisas eleitorais, que apontavam para a possível mudança de governo e, consequentemente, dos rumos da política como um todo.

Com o resultado consolidado, o IPCA acumulou alta de 4,7% no ano e 6,47% em 12 meses, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para novembro, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15), que é a prévia da inflação, também teve aumento de 1,17%.

Ainda tentando alcançar a meta de inflação, o Banco Central usa como principal instrumento a taxa básica de
juros, a Selic, definida em 13,75% ao ano pelo Comitê de Política Monetária (Copom). Porém, mesmo atingindo o maior nível desde janeiro de 2017, quando também estava nesse patamar, a taxa de juros elevada vem se mostrando insuficiente para fazer frente às incertezas que, lamentavelmente, ainda persistem.

As justificativas para a hesitação dos investidores são inúmeras, a começar pelo silêncio do novo governo sobre o que pretende fazer para incentivar a continuidade do processo de recuperação econômica iniciada em 2019, que levou à acentuada redução do nível de desemprego.

Além disso, é preciso mostrar como pretende gerar os recursos necessários ao aumento dos gastos públicos que a equipe de transição vem alardeando como forma de cumprir as promessas de campanha. O que se espera neste momento, para o bem do Brasil, é que os quase 300 auxiliares escolhidos pelo presidente eleito para desatar o nó exposto nas últimas quatro semanas tenham mais sucesso no decorrer do mês de dezembro.

Afinal de contas o treinamento acaba na virada do ano. A partir de janeiro, as consequências dos erros e dos acertos serão sentidos por 212 milhões de brasileiros de carne e osso.