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A distância

O caminho sem volta da flexibilização do trabalho

O home office, antes adotado em segmentos específicos, mostrou-se possível diante das restrições de contato impostas pela pandemia

24 de Novembro de 2022 às 00:01
Cruzeiro do Sul [email protected]
Teletrabalho, home office ou trabalho remoto.
Teletrabalho, home office ou trabalho remoto. (Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Empresas do mundo todo têm estudado formas de flexibilizar a jornada de trabalho e o ambiente dos escritórios como forma de atrair e manter os colaboradores. O processo acelerou-se durante a pandemia de Covid-19.

De uma hora para outra, milhões de pessoas tiveram de exercer suas funções remotamente em ambientes precários, sem a tecnologia necessária para produzir bem. O que era para ser um processo que duraria apenas alguns dias acabou prorrogando-se por meses. Aos poucos, problemas foram solucionados e tecnologias mais apropriadas foram desenvolvidas e adaptadas para facilitar esse momento de emergência sanitária.

Passada a pandemia, a maioria dos trabalhadores já retornou, presencialmente, a seus postos de trabalho, mas ficou aquele gostinho deixado por algumas vantagens da época do home office.

Pensando nisso, desde o começo do ano, empresas têm estruturado projetos que permitam flexibilizar o trabalho. Muitos ainda estão em fase de testes. Pesquisa realizada pela Conexa, empresa que presta serviços a operadoras de saúde e corporações, mostra que 32% dos profissionais sentem que o modelo de trabalho afeta a saúde emocional. Desses, 50% estão no presencial; 29% no híbrido e 21% no home office. Para 56%, a modalidade em que atuam não causa interferência.

O levantamento foi realizado entre agosto e setembro deste ano com 1.818 pessoas que fazem acompanhamento psicológico na plataforma. A relação entre os modelos de trabalho e as condições emocionais não é unânime, mas encontra eco no histórico dos últimos dois anos. O home office, antes adotado em segmentos específicos, mostrou-se possível diante das restrições de contato impostas pela pandemia, mesmo com a desconfiança inicial sobre se daria certo.

“Percebeu-se que as pessoas acabam até se tornando mais produtivas no home office”, diz Luciene Bandeira, psicóloga e diretora de saúde mental da Conexa. “Por causa dessa experiência, os trabalhadores passaram a olhar para a relação de trabalho de maneira diferente, o que os faz refletir que é possível conciliar vida pessoal e profissional”.

Essa mudança de comportamento está mexendo com a cabeça de profissionais experientes. Em busca de melhor qualidade de vida, muitos profissionais chegam a abrir mão de benefícios e de salários mais altos para viver de uma maneira mais tranquila e livre das pressões e metas.

Uma pesquisa da consultoria Robert Half realizada com 1.161 profissionais de todo o País reforça os dados da Conexa: 39% dos colaboradores buscariam um novo emprego se a empresa atual não oferecesse, ao menos, uma alternativa parcialmente remota. Para 77% deles, o home office é mais um modelo de trabalho do que um benefício e a mesma proporção indica o formato híbrido como a melhor opção para equilibrar vida pessoal e profissional. Enquanto isso, 17% preferem o remoto e apenas 6% optam pelo totalmente presencial.

A consultora de Recursos Humanos e mentora de carreiras Karen Vasconcelos pondera que o home office não é para todos, seja porque alguns profissionais demandam maior interação humana ou porque o modelo não funciona para certos ramos de atividade.

Quando o trabalho presencial se faz necessário ou é requerido, as companhias têm procurado atrair os funcionários. Karen enumera ações como desenvolvimento de liderança, programas de qualidade de vida, benefícios de autocuidado e ambientes humanizados, como os que aplicam neuroarquitetura. Essas empresas também valorizam políticas ESG -- em português, práticas ambientais, sociais e de governança de uma organização -- e de diversidade e inclusão. “Isso tem diminuído a resistência ao presencial”, observa Karen.

Qualquer que seja o futuro do mercado de trabalho, ele vai passar por uma série de adaptações. Escritórios cheios e barulhentos vão dar lugar a espaços menores, onde haja respeito às individualidades de cada um. Esse é um caminho sem volta, que cada empresa vai ter de trilhar adequando o seu negócio às exigências das gerações de trabalhadores que estão por vir.