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Editorial

Expectativa de juros mais altos mexe com a economia

A taxa Selic é o principal instrumento de política monetária para manter a inflação sob controle

14 de Junho de 2022 às 00:01
Cruzeiro do Sul [email protected]
(Crédito: MARCELLO CASAL JR. / AGÊNCIA BRASIL )

A semana começou com muita expectativa na economia. O Federal Reserve (Fed), o Banco Central dos Estados Unidos, anuncia a nova taxa de juros do país. Os analistas esperam um aumento de meio ponto percentual, mas já há quem aposte num número maior, 0,75. Isso, por si só, mexeu com as bolsas no mundo todo. Os índices caíram de leste a oeste.

Aqui no Brasil o efeito provocado pelas incertezas no índice do Fed também foi sentido. A Bolsa de Valores de São Paulo desabou e a cotação do dólar passou dos cinco reais. Para piorar a situação, a semana será também de mudança na taxa de juros.

O Copom, Comitê de Política Monetária do Banco Central, define, amanhã (15), o novo patamar da taxa básica de juros. Para essa reunião do Copom, há um consenso entre os integrantes do mercado financeiro de que a taxa Selic será elevada para 13,25% ao ano. A dúvida que ainda persiste é se o ajuste vai encerrar o ciclo de alta dos juros ou se novas altas serão necessárias para conter o avanço dos preços. Essa informação estará na ata da reunião e pode representar o fim da trajetória de altas iniciada em março do ano passado.

Para 2023, a perspectiva atual dos analistas de mercado é que haja queda gradativa da Selic e a taxa feche o ano em 9,75%.

Para o economista-chefe do Sicredi, Pedro Ramos, o combate à inflação é um fator determinante para as próximas decisões do Copom. “Há um problema global que faz a inflação ficar alta. Durante os piores momentos da pandemia, os governos e BCs estimularam muito a economia e o consumo e tivemos também dificuldades para produzir”, justifica ele.

A taxa Selic é o principal instrumento de política monetária para manter a inflação sob controle. Isso acontece porque os juros mais altos encarecem o crédito, reduzem a disposição para consumir e tornam mais atrativas novas alternativas de investimento. Com o dinheiro circulando menos e um número menor de pessoas interessadas em comprar, o preço dos produtos acaba cedendo e a inflação volta para os trilhos. Só que em doses exageradas, a taxa de juros afeta o crescimento do país, mexe com a geração de empregos e pode jogar a sociedade numa recessão.

Outro fator considerado determinante para os próximos passos da política monetária envolve os gastos do governo, a chamada política fiscal. Se o governo gerir bem seus recursos, a economia funciona. Se os gastos extrapolarem haverá um desequilíbrio ainda maior.

Na percepção de Pedro Ramos, do Sicredi, as medidas que elevam o consumo das famílias dificultam o controle da inflação. “Para o Banco Central, isso é ruim, porque um aumento de despesas em um momento de elevação das taxas de juros faz com que esse ciclo de alta seja mais persistente do que deveria se houvesse uma sincronização dessas duas políticas.”

O Brasil não vai conseguir resolver seus problemas isoladamente. A crise é global, com a inflação também atingindo economias mais fortes que a nossa.

Na última semana, por exemplo, foi divulgado que a inflação dos EUA avançou 1% em maio, acima do consenso, o que vem dando impulso às taxas de juros do país. “A inflação ao consumidor nos EUA de maio elevou a tensão para níveis máximos, com os receios de que o pico da inflação ainda não foi atingido e que o Fed está atrás da curva”, explicaram, ontem, analistas da XP Investimentos.

O mercado europeu espera o posicionamento do seu Banco Central, que tem tomado, nos últimos relatórios, medidas severas de combate à inflação. No Reino Unido, além da pressão da alta de juros, a economia não vai nada bem. O Produto Interno Bruto (PIB) britânico frustrou as expectativas de alta de 0,1% e encolheu 0,3% em abril.

O momento é de muita cautela para todos. Qualquer decisão precisa ser muito bem pensada para que os bons resultados econômicos colhidos no Brasil nas últimas semanas não vão por água abaixo. Precisamos que nossos dirigentes e que nossos políticos ajam com sabedoria nessa hora de turbulência geral.