Editorial
Educação em busca de incentivo
Recuperar o ensino, principalmente daqueles que vem de família de baixa renda, é fundamental para o crescimento
A educação dá sinais preocupantes no período pós pandemia. Os dois anos de isolamento, com aulas à distância, esfriou o ânimo de milhões de alunos. O resultado pode ser constatado de diversas formas.
A edição do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano, por exemplo, teve menos de 3, 4 milhões de inscrições confirmadas. De acordo com Ministério da Educação (MEC), o número representa um aumento de 11,6% em relação à edição de 2021. Apesar do crescimento de cerca de 300 mil inscritos, na comparação com o exame do ano passado, o Enem 2022 terá a segunda menor participação desde que a prova foi reformulada, em 2009.
Dos inscritos, 3.331.531 farão a versão em papel e 65.066, em computador. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) aplicará as provas das duas versões nos dias 13 e 20 de novembro.
O Enem serve para avaliar o desempenho escolar dos estudantes ao término da educação básica. Ao longo de mais de duas décadas de existência, tornou-se uma das principais portas de entrada para a educação superior no Brasil, por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e de iniciativas como o Programa Universidade para Todos (ProUni), ambas ações do Ministério da Educação.
Instituições de ensino públicas e privadas utilizam o Enem para selecionar estudantes. Os resultados são usados como critério único ou complementar dos processos seletivos, além de servirem de parâmetros para acesso a auxílios governamentais, como o proporcionado pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).
Os resultados individuais do Enem também podem ser usados nos processos seletivos de instituições portuguesas que têm convênio com o Inep para aceitarem as notas do exame. Os acordos garantem acesso facilitado às notas dos estudantes brasileiros interessados em cursar a educação superior em Portugal.
A baixa procura pelo exame se deve ao pouco conhecimento adquirido pelos estudantes durante o isolamento. Muita gente também precisou abandonar os bancos escolares para ajudar na renda de casa, afetada pelo fechamento, indiscriminado, de milhares de negócios por todo o país. Retomar o ensino, agora, é uma tarefa que poucos se interessam e que será necessário muito estímulo para que isso ocorra.
Esse problema vem num momento que o Brasil precisa de profissionais especializados para retomar o crescimento econômico. Segundo Erly Domingues de Syllos, diretor do Ciesp Sorocaba, o Brasil deve enfrentar um déficit anual de 159 mil profissionais de software e serviços de TI até o ano de 2025. São quase 800 mil profissionais que o país tem que formar e não está conseguindo fazê-lo. Enquanto isso, estudantes deixam as salas de aula, sem completar o ciclo, e acabam conquistando ocupações de pouca remuneração.
O Senai pretende criar, ainda este ano, 60 mil novas vagas em cursos profissionalizantes. O projeto é uma parceria com gigantes do mundo da tecnologia e pretende suprir parte dessa demanda. Só que é necessário que essa oferta de vagas chegue a quem realmente precisa.
Outro indicador preocupante é a queda na procura por vagas nos cursos técnicos oferecidos pela Centro Paula Souza, em São Paulo. Ano após ano as inscrições para o Vestibulinho são prorrogadas à espera de que mais gente se interesse. Algumas unidades sequer conseguem preencher as vagas oferecidas e cursos já foram desativados em várias unidades do estado.
Recuperar o ensino dos brasileiros, principalmente daqueles que vem de família de baixa renda, é fundamental para retomarmos o crescimento. Só com a educação em massa, de boa qualidade, é que poderemos competir com países de outros continentes. Temos qualidade, professores capacitados e jovens disponíveis na sociedade. Só é preciso juntar tudo isso para se formar os talentos que tanto necessitamos.