Editorial
Doenças respiratórias afetam os pequenos
As crianças tiveram pouco contato com outras pessoas e não foram expostas aos vírus que circulam por aí
A rede de saúde de Sorocaba identificou, nas últimas semanas, um aumento de casos de doenças respiratórias em crianças. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SES) o crescimento é de 12% na comparação com maio de 2019, antes do início da pandemia de Covid-19.
De acordo com a SES, entre março e julho, é esperada alta nos atendimentos de quadros respiratórios, sobretudo, no setor de pediatria. A secretaria informa ainda que isso tem relação com a queda nas temperaturas. Em março, começa o outono, e, em junho, o inverno, duas estações mais frias. Desta forma, o clima gelado e mais seco pode realmente estar relacionado ao agravamento desses problemas de saúde.
Mesmo diante desse quadro considerado “normal”, o gestor da Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba, padre Flávio Jorge Miguel Júnior, em entrevista à rádio Cruzeiro FM 92,3, na quarta-feira (25), disse que o cenário os hospitais da cidade enfrentam um momento crítico. E que em diversas unidades de saúde, das redes pública e particular, a procura por atendimentos relacionados à síndrome gripal está muito elevada, principalmente, entre crianças.
Em algumas delas, completou ele, o número de internações também é alto. Tanto que afirmou não haver mais leitos de pediatria disponíveis em determinados hospitais, por conta da lotação. “O que nós percebemos, não é (só) em Sorocaba, é no Brasil inteiro, é uma calamidade pública, em muitos Estados, quanto às crianças”, falou.
O padre chegou a sugerir que os pais redobrem o cuidado principalmente para quem tem filhos na faixa entre 0 a 4 anos. “A criança é diferente do adulto. Ela toca em tudo quanto é coisa, elas se abraçam, se beijam, vão de colo em colo. Portanto, está mais vulnerável, e o seu sistema imune também”, destacou.
O pediatra e presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Renato Kfouri, explica que em todo o outono, pelas baixas temperaturas e acúmulo de pessoas em locais fechados, há um aumento expressivo dos casos de doenças respiratórias, mas acredita que a baixa imunidade das crianças, por conta de dois anos sem contato externo por causa da pandemia, pode estar contribuindo para esse crescimento fora do normal em 2022.
“O que tem de diferente nesse ano é que o aumento comparando com os últimos dois anos é muito expressivo. Isso porque o protagonismo da Covid-19 não deixou que os outros vírus respiratórios circulassem tanto, o que fez com que tivéssemos acúmulos de crianças nascidas de 2019 para cá sem exposição a nenhum tipo de vírus. Isso faz com que seja alto o número de suscetíveis agora nessa idade”, afirmou Kfouri.
O médico também reforça que, em caso de sintomas, não se deve colocar a criança em contato com outras pessoas, como na escola, por exemplo, pois isso favorece a disseminação de um vírus. Os sinais mais frequentes são sintomas gripais, falta de ar, cansaço, febre alta, fatores que os pais devem estar em alerta e, se for o caso, conversar com um pediatra ou procurar um serviço de saúde, orientou Kfouri.
As orientações médicas são importantes nesse momento. O apelo do padre, responsável, por gerir a Santa Casa de Sorocaba, também. Só que esse movimento retrata, e muito, os dois anos de isolamento a que a sociedade foi submetida por causa da pandemia. As crianças tiveram pouco contato com outras pessoas e os organismos não foram expostos aos vírus que normalmente circulam. Com o corpo desprotegido fica mais fácil contrair doenças. Só que manter as crianças mais uma vez afastadas do convívio social só vai retardar essa autoimunidade.
Deve caber aos pais a decisão de expor, ou não, os filhos ao risco. O bom senso é fundamental nesse momento. Não se pode é eternizar os obstáculos impostos à sociedade pela Covid-19.