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Editorial

O desvio de cargas e o crime organizado

Em todas as grandes cidades do Brasil existem feirões de mercadoria que vendem toneladas de produtos roubados

29 de Abril de 2022 às 00:01
Cruzeiro do Sul [email protected]
(Crédito: Divulgação / Polícia Civil )

Os ditados populares são frases ou expressões passadas de geração em geração. Elas transmitem o conhecimento adquirido pela sociedade por décadas. E esse tipo de sabedoria nos ajuda a escapar de uma série de enrascadas.

Um desses ditos bastante conhecidos é “Quando a esmola é muita, o santo desconfia”. Numa interpretação livre podemos chegar à conclusão que quando alguém te oferecer uma coisa que parece muito boa, fora da realidade de mercado, desconfie. Com certeza algum problema existe.

Foi o que aconteceu na zona norte de Sorocaba. A Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic) apreendeu mais de 7 mil garrafas de bebidas em supermercados. Segundo a polícia, as bebidas, sucos e vinhos, fariam parte de um golpe ocorrido em São Paulo. O estelionatário teria comprado de um fabricante um lote de produtos. Recebeu, não pagou e sumiu. Enquanto o vendedor tentava recuperar o que lhe era devido, o golpista revendia as bebidas para supermercados do interior. Como não pagou nada pelo produto, oferecia a preços bem menores para os novos compradores. Foi o próprio representante da marca que descobriu a farsa e avisou a polícia. Como os produtos eram vendidos bem abaixo do preço, foi fácil constatar o problema. O delegado encarregado do caso está agora à procura do estelionatário.

E esse não é o único tipo de golpe que atinge o comércio. O número de roubo de cargas tem subido nos últimos meses.

Em Limeira, por exemplo, a Guarda Civil Municipal e a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) recuperaram, na segunda-feira (25), um caminhão roubado no município de Pedreira. A carga de laticínios estava avaliada em R$ 55 mil. Segundo as investigações, após o roubo, o motorista foi abandonado em Nazaré Paulista (SP).

Um levantamento feito pela Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística) mostra que os roubos de carga cresceram 1,7% no País em 2021. No total, o prejuízo financeiro atingiu a marca de R$ 1,27 bilhão. A região Sudeste foi a que registrou o maior número de ocorrências com 82% dos casos. Para Roberto Mira, vice-presidente de segurança da NTC&Logística, o aumento de roubos se deve, em boa parte, ao retorno da atividade econômica, prejudicada por conta de dois anos de pandemia. “A volta das atividades inevitavelmente aumentaria o fluxo de mercadorias nas rodovias e, por consequência, dos roubos e dos furtos de carga. Sobretudo com a inflação elevada, por causa de fatores internos e externos, certos produtos ficaram muito valiosos e atrativos para os grupos organizados”, explicou Mira.

De acordo com a pesquisa, as mercadorias mais visadas pelas quadrilhas e pelos grupos criminosos são alimentos, combustíveis, produtos farmacêuticos, autopeças, materiais do setor de têxteis e de confecção, cigarros, eletroeletrônicos, bebidas e defensivos agrícolas.

São produtos que podem ser distribuídos facilmente. E que geram dinheiro rápido aos contraventores. Como as mercadorias são roubadas e precisam circular rapidamente, o preço de venda desaba. O consumidor, tentado pela oferta, acaba cedendo e adquirindo produtos de origem ilegal.

Segundo o professor José Ricardo Bandeira, perito em Criminalística e especialista em Segurança Pública, em todas as grandes cidades do Brasil existem feirões de mercadoria que realizam a venda no varejo de toneladas de produtos roubados. Essas feiras já são conhecidas não só da polícia como também por grande parte da população, causando prejuízos milionários ao setor e inacreditavelmente funcionam em data, hora e local fixos.

“Paralelamente a essas feiras existe uma grande quantidade de comerciantes que possuem estabelecimentos informais nas comunidades que efetuam a venda de mercadorias e produtos roubados, a preços muito inferiores aos praticados no comércio legal. Como esses ‘comércios‘ estão em zonas dominadas pelo tráfico de drogas, eles contam com a proteção dada pelos traficantes, revertendo parte do lucro para o chefe local”, explicou o professor Bandeira.

E aí voltamos ao início desse texto. “Quando a esmola é muita, o santo desconfia”.

Ao comprarmos produtos vindos do crime estamos alimentando e armando poderosas quadrilhas. O dinheiro arrecadado por eles nesse tipo de negócio vai financiar o tráfico de drogas, os grandes assaltos e a corrupção.

A pequena vantagem que teríamos comprando por um preço menor uma barra de chocolate, uma bebida ou um maço de cigarros acaba se transformando num grande prejuízo para toda a sociedade.

Combater esse tipo de crime também é um dever de todo cidadão. Resista à tentação do ganho fácil, desconfie de algumas ofertas evitando assim engordar os cofres das organizações criminosas.