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Editorial

Dois pesos e duas medidas

Se a votação do projeto que liberava o trabalho remoto foi feita de maneira emergencial e bastante rápida, o mesmo não deve acontecer com a que cancela essa possibilidade

30 de Março de 2022 às 00:01
Cruzeiro do Sul [email protected]
Fachada da Câmara Municipal de Sorocaba.
Fachada da Câmara Municipal de Sorocaba. (Crédito: LUIZ SETTI / ARQUIVO JCS (7/1/2020))

A Câmara de Sorocaba aprovou, quinta-feira passada, um projeto de resolução que liberava os vereadores de comparecer, presencialmente, às sessões. A adoção do trabalho remoto causou indignação na população. A pressão foi tanta que o autor do projeto que criou a polêmica, vereador Fernando Dini (MDB), resolveu, ele mesmo, protocolar um novo projeto cancelando o que foi aprovado.

O problema é que a decisão tomada por dezesseis dos vinte vereadores ainda está valendo. Até que o novo projeto seja votado no plenário, está mantida a possibilidade dos vereadores participarem de sessões híbridas e cada um deles vai poder escolher de onde quer atuar.

O presidente da Câmara, vereador Claudio Sorocaba (PL), disse em entrevista ao jornal Cruzeiro do Sul, que o projeto aprovado na semana passada estava praticamente regulamentado e que pouca coisa mudaria na comparação com o que já foi adotado no período de pandemia. “Nós já fazemos um trabalho híbrido na Câmara, mas a maior parte dos vereadores participa presencialmente. Temos um ou dois que acabam ficando mais vezes participando de forma remota. Mas, se a população acha melhor os vereadores estarem lá, para mim não muda nada.”

Se a votação do projeto que liberava o trabalho remoto foi feita de maneira emergencial e bastante rápida, o mesmo não deve acontecer com a que cancela essa possibilidade. Ele deve seguir os trâmites normais da Casa. Passar por comissões, muita discussão, até ser levado para votação.

Isso garante duas vantagens aos dezesseis vereadores que apoiaram a proposta. A primeira, a memória do povo, e a segunda, o calendário eleitoral.

Ao alongar o prazo de discussão e debates, o assunto começa a cair no esquecimento, a pressão pública diminui e se abre a possibilidade de se deixar tudo como está, com a manutenção das sessões híbridas já aprovadas. Nesse aspecto, a população precisa estar vigilante. Se a revogação desse projeto for mesmo desejo da comunidade é preciso manter os olhos atentos para os próximos capítulos dessa história. E cobrar o seu vereador para que ele se posicione, claramente, sobre o tema.

A segunda vantagem é que estamos praticamente a seis meses da eleição. E muitos vereadores tem interesse em deixar o dia a dia do plenário da Câmara Municipal para se engajar na disputa. Alguns como candidatos a uma vaga na Assembleia Legislativa ou no Congresso Nacional, outros emprestando a sua popularidade a aliados partidários. Quanto mais tempo levar para a volta do trabalho presencial obrigatório, mais tempo eles terão para percorrer os bairros da cidade e toda a região em busca de votos. E é legítimo que eles se engajem nesse processo. Sorocaba precisa do maior número possível de representantes que lutem por verbas e melhorias, tanto na esfera estadual como na federal, mas os nossos vereadores não podem deixar de lado a tarefa para a qual foram eleitos e pela qual são remunerados.

Na Bíblia, uma expressão era muito utilizada para caracterizar esse tipo de atitude. No livro Deuteronômio 25:13-16 está escrito: “Não carregueis convosco dois pesos, um pesado e o outro leve, nem tenhais à mão duas medidas, uma longa e uma curta. Usai apenas um peso, um peso honesto e franco, e uma medida, uma medida honesta e franca, para que vivais longamente na terra que Deus vosso Senhor vos deu. Pesos desonestos e medidas desonestas são uma abominação para Deus vosso Senhor.”

E isso exemplifica bem a atual situação. Se os vereadores usaram de rapidez para votar um benefício destinado a eles, que usem agora essa mesma rapidez para cancelar o que foi feito e criticado pela população.

Só dessa forma será possível acreditar que eles realmente se arrependeram das mudanças feitas nas sessões plenárias. Que a participação presencial obrigatória seja retomada e que o povo possa fiscalizar, de perto, a atuação de seus representantes.