Editorial
As dores do crescimento
Sorocaba começa a enfrentar um dilema: a chegada de novos investidores traz divisas, gera empregos, mas expõe as fragilidades e os gargalos dos serviços ofertados pelo poder público
Sorocaba tem experimentado, nas últimas décadas, um crescimento econômico expressivo. Para todo canto que se olha, esses sinais podem ser vistos. São obras e mais obras de novos empreendimentos que surgem em todas as regiões da cidade. Projetos que devem gerar novos empregos e mais arrecadação para o município.
E essa maré de bonança parece estar longe de chegar ao fim. Dados da própria administração pública mostram que um grande número de empresas tem procurado informações com o propósito de se instalar na cidade.
Segundo a prefeitura, nos últimos catorze meses, mais de trinta empresas de grande porte apresentaram interesse em investir ou ampliar os investimentos em Sorocaba. Se todos esses projetos vingarem, a expectativa é que cerca de quatro mil novas vagas diretas de trabalho sejam geradas nos próximos anos. Isso sem contar os empregos indiretos que sempre aparecem na esteira desses novos investimentos.
O problema é que, junto com todo esse crescimento, começam a aparecer uma série de gargalos na infraestrutura urbana.
O excesso de veículos, principalmente nos horários de pico, já provoca demora na locomoção. Algumas ruas e avenidas ficam sobrecarregadas e longas filas se formam tanto na direção centro-bairro, como na direção bairro-centro. Cruzar a cidade tem sido cada vez mais demorado e difícil.
O fornecimento de água já dá sinais de fadiga. A Prefeitura e o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) precisaram adotar, nos últimos meses, medidas de racionamento para impedir o colapso na represa de Itupararanga, principal fonte de abastecimento de toda a região. A falta de água disponível pode fazer com que muitas empresas fiquem em dúvida na hora de investir em Sorocaba. A cidade não pode contar só com a ajuda de São Pedro para resolver essa situação. Medidas urgentes, em parceria com outros municípios, precisam ser tomadas para garantir a recomposição dos níveis de Itupararanga.
As chuvas deste verão também expuseram um outro problema. A situação de assoreamento de vários rios e córregos que cortam a cidade. Em várias ocasiões, poucos minutos de precipitação intensa eram suficientes para provocar enchentes, alagamentos e o bloqueio de ruas e avenidas. Situações como essa prejudicam a imagem do município e dificultam a chegada de novos investidores.
Um outro dado preocupante foi divulgado pela Escola Nacional de Administração Pública (Enap). Sorocaba caiu vinte posições no Índice de Cidades Empreendedoras na comparação com o levantamento de 2017. Estamos, atualmente, na 32ª posição. Em 2016 ocupávamos a 6ª posição e em 2017 a 12ª. De um levantamento para o outro os números pioraram em cinco dos sete aspectos analisados. Destaque para o aumento na burocracia para se investir na cidade. Sorocaba ocupa agora a 82ª posição num ranking de 101 municípios avaliados. A queda foi de 53 posições. Chama atenção, também, a piora nos índices de recursos humanos disponíveis. Diversas reclamações de falta de mão de obra básica e de mão de obra capacitada foram relatadas aos pesquisadores. Nesse tópico, Sorocaba caiu 24 posições.
Mas o estudo não tem só notícias ruins. A percepção sobre a cidade melhorou, um pouco, tanto no quesito cultura empreendedora como no quesito inovação.
Sorocaba começa a enfrentar um dilema. De um lado a chegada constante de novos investidores traz divisas, gera empregos e melhora a arrecadação. Do outro, o crescimento desordenado expõe as fragilidades e os gargalos dos serviços ofertados pelo poder público e a dificuldade de agir de forma célere para responder às necessidades que aparecem no dia a dia.
O desafio, daqui para frente, vai ser equilibrar o crescimento econômico com a melhoria da infraestrutura como um todo. E isso não se faz sem um bom trabalho de planejamento. A administração municipal informou que elabora um novo Plano Diretor que possibilite a modernização da cidade e a desburocratização dos serviços públicos, facilitando a vida de quem quer empreender. Só que não há, ainda, um prazo para a finalização e apresentação deste projeto.
O que todo sorocabano sonha para o futuro é uma cidade moderna, onde se possa viver bem, educar os filhos com qualidade, conquistar bons empregos, sem que se perca de vista a justiça social e o respeito ao meio ambiente.