Editorial
São Pedro nem sempre é o vilão
Uma política pública voltada à organização da cadeia produtiva de alimentos (...) poderia, sim, evitar distorções de preços e desabastecimentos sazonais
Estiagem prolongada, chuva de mais, geada, granizo... De uma maneira ou de outra, São Pedro, fatalmente, acaba levando a culpa pelo rombo no bolso -- e na barriga -- dos consumidores. Fatores climáticos são, comumente, apontados como causas imediatas do encarecimento de alimentos, especialmente dos produtos hortifrutigranjeiros, e até do etanol -- que, neste momento de petróleo nas alturas, poderia ser a tábua de salvação dos brasileiros. A história se repete desde sempre, seja verão ou qualquer outra estação do ano, num ciclo sem fim, embora naturalmente previsível.
Evidentemente, a tecnologia humana ainda não chegou ao ponto de controlar os fenômenos climáticos. No entanto, dispomos de ferramentas potencialmente capazes de contornar grande parte das adversidades. A lista de instrumentos ao nosso alcance inclui desde um planejamento de cultivo que alinhe a previsão de consumo às características meteorológicas de cada região -- e haja terra para plantar no Brasil! -- até a adoção de políticas que incentivem a relação direta produtor-consumidor, encurtando a distância entre a roça e a mesa. Implementadas conjuntamente, iniciativas desse tipo já foram testadas e demonstraram sua eficiência em países muito menos favorecidos pela mãe natureza do que o nosso, como Israel, Coreia do Sul, Japão e Islândia, entre outros.
Na semana que passou, o Cruzeiro do Sul foi à feira, visitou supermercados, conversou com donas de casa, ouviu produtores e consultou as estatísticas da maior rede de entrepostos de alimentos do Brasil, a Ceagesp, para tentar entender, por exemplo, porque um quilo de cenoura registrou aumento de quase 300% em quatro meses, sendo 55% apenas no mês de fevereiro. A resposta foi uma simples adaptação do batido enredo repetido há décadas: o tempo não colaborou. Dessa vez, o pertinaz vilão, São Pedro, esqueceu de fechar as torneiras celestes na região de São Gotardo, no centro de Minas Gerais, onde estão concentradas durante o verão as maiores plantações de Daucus carota, a raiz tuberosa rica em provitamina A mais conhecida como cenoura.
Resumindo: a chuvarada que reduziu a produção mineira de cenouras pegou todos os grandes centros consumidores desabastecidos, levando, consequentemente, os preços às alturas. Assim, a crise enfrentada em Recife, onde o quilo de cenoura nos supermercados custava, em média, R$ 12 na sexta-feira (18), tinha dimensão semelhante ao perrengue dos sorocabanos, que eram obrigados a desembolsar entre R$ 12 -- nas promoções -- e R$ 15 pelo mesmo produto. Em ambas as cidades, apesar da distância de 2,8 mil quilômetros, as etiquetas nas gôndolas dos supermercados também marcavam preços semelhantes em meados de outubro passado: de R$ 3 -- na promoção -- a R$ 5 o quilo.
Neste momento, o leitor com algum conhecimento teórico sobre economia deve estar avaliando a situação como resultado natural da aplicação da lei da oferta e da procura. Em tese, quem chegou a essa conclusão não cometeu nenhum engano. Afinal de contas, se a produção não dá conta da demanda, o produto escasso tende a se valorizar. No entanto, a questão mercadológica é apenas o desfecho de um longo processo de desprojeto, uma aberração que acomete a agricultura familiar, voltada ao consumo interno como um todo. Na verdade, ela nem existiria -- ou, pelo menos, seria significativamente reduzida -- caso fosse tratada com a importância que merece.
Uma simples avaliação do que ocorre na Região Metropolitana de Sorocaba serve como indicativo de que a teoria pode dar prova na prática. De acordo com a Ceagesp, os municípios de Piedade, Ibiúna, Salto de Pirapora e São Miguel Arcanjo são responsáveis por cerca de 30% do volume total dos 20 principais itens agrícolas produzidos no Estado de São Paulo. Em alguns casos, a participação da RMS na produção paulista se aproxima de 100%. A lista engloba frutas, verduras e legumes, incluindo uma boa quantidade da momentaneamente ultravalorizada cenoura. Vale destacar que Piedade também figura como um dos maiores centros de beneficiamento de cenoura do Brasil. Pelas dezenas de selecionadores/lavadores espalhados pelo município passam anualmente 200 mil toneladas, a maior parte produzida em Minas Gerais. De lá, o produto pega a estrada novamente, a caminho dos entrepostos brasileiros, incluindo nos longíquos Norte e Nordeste.
Obviamente, o regime de livre mercado não permite determinar a destinação desta ou daquela produção ou, ainda menos, restringir a área de comercialização de qualquer empresa. Porém, uma política pública voltada à organização da cadeia produtiva de alimentos no âmbito estadual -- ou até mesmo regional e nacional -- poderia, sim, evitar distorções de preços, desabastecimentos sazonais e também os não tão incomuns excessos de produção. Paralelamente, o incentivo às formas de comercialização direta ao consumidor -- ou, pelo menos, ao comércio varejista --, certamente, resultaria a chegada de alimentos mais fartos e baratos na mesa do consumidor.
Apenas a título de curiosidade, alguém sabe dizer as idas e vidas da cenoura antes de chegar ao carrinho do consumidor? Ou, igualmente, por quantos atravessadores ela passou nesse percurso? Ou, ainda, quantas vezes o seu preço foi aumentado, de forma a gerar lucro a todos os envolvidos? Voltando à cenoura: na tabela da Ceagesp de São Paulo, a cotação do quilo do tipo extra variava, nesta sexta-feira (18), entre R$ 4,33 a R$ 5,44. Bem menos do que os R$ 14 registrados pelo Cruzeiro em um supermercado da cidade no mesmo dia. Por fim, alguém sabe quanto o lavrador recebeu ao entregar na Ceagesp?