Editorial
Não dê trégua ao mosquito
Imprudentemente, pessoas e empresas desdenharam dos cuidados básicos para evitar a proliferação do inseto capaz de transmitir doenças potencialmente graves
Concentrando esforços no combate ao novo inimigo, o coronavírus, muitos sorocabanos acabaram abaixando a guarda contra uma ameaça tradicional, impiedosa e quase tão letal: o Aedes aegypti. Imprudentemente, pessoas e empresas desdenharam dos cuidados básicos para evitar a proliferação do mosquito capaz de transmitir, com uma única picada, doenças potencialmente graves, como a dengue, a chikungunya, a zika e a febre amarela. Neste mês de fevereiro, após semanas de intensas chuvas e clima abafado, Sorocaba atingiu Avaliação de Densidade Larvária (ADL) 5,7%, o maior índice dos últimos cinco anos. O valor é quase seis vezes o limite considerado satisfatório pelo Ministério da Saúde, que é de 1%. Isso significa que o município alcançou novamente o estágio de risco epidêmico. O cenário atual lembra aquele das primeiras semanas de 2015, quando a cidade viveu um dos momentos mais difíceis, contabilizando 52.575 casos notificados de dengue e 28 mortes apenas até o mês de maio.
O novo sinal de alerta foi ligado sete meses atrás, momento em que o município registrou aumento expressivo de casos na comparação com o ano anterior. Naquela data, o número de infecções confirmadas já atingia aproximadamente 65% do montante documentado na somatória dos 12 meses de 2020. Foram 1.201 contágios no primeiro semestre de 2021, contra 1.873 durante todo o ano anterior. A tendência de alta verificada durante o outono e início do inverno, estações menos propícias à proliferação do inseto, levou a Secretaria Municipal da Saúde a intensificar as ações preventivas, como retirada de entulhos e orientação à população para eliminar periodicamente os habitats preferidos do bichinho. A proposta era preparar a cidade para chegar ao verão com o menor índice larvário possível e, assim, evitar maiores problemas. Vale lembrar que a ADL mede o percentual de imóveis onde se verifica a existência de larvas do mosquito da dengue. Ou seja, a taxa média de 5,7% indica que a cada grupo de 100 imóveis verificados, quase seis tinham Aedes aegipty em desenvolvimento.
O relatório mais recente da Vigilância Epidemiológica do município -- divulgado em 3 de fevereiro --, deixa claro que a população não fez a lição de casa. Toda a cidade encontra-se agora com um potencial de casos de dengue quase três vezes e meia maior do que o trecho mais infestado da cidade em outubro de 2015. Naquela ocasião os bairros da região noroeste -- incluindo Vila Barão, Lopes de Oliveira e Parque São Bento, entre outros -- apresentavam ADL de 1,6%. Uma semana atrás, a taxa no Wanel Ville, na zona oeste, atingia 7,59%. A ADL atual também é superior aos índices mais elevados registrados nos últimos cinco anos: 4,5% no ano passado; 3,5% em 2020; 4,4% no ano de 2019; 3,8% em 2018; e 1,1% em 2017.
A boa notícia é que, pelo menos até a semana passada, apesar do índice larvário médio extremamente elevado, o vírus da dengue ainda circulava em nível inferior ao de anos anteriores. No dia 3 de fevereiro, a Secretaria Municipal da Saúde registrava 11 casos de dengue confirmados no município em 2022. Em 2017, por exemplo, o primeiro mês do ano registrou um total de 547 pessoas doentes.
Para a administração municipal, o baixo número de casos confirmados neste ano não configura um momento epidêmico. No entanto, a elevada ADL registrada em todas as regiões da cidade sinaliza para a possibilidade de uma explosão de infecções a qualquer momento. Isso, implicaria, possivelmente, na superlotação das unidades de saúde, o que dificultaria o atendimento à população. A simples perspectiva de crise exige ações urgentes e extremas por parte da Prefeitura, incluindo a ampliação da força-tarefa responsável pela inspeção de residências e empresas para a identificação de larvas do mosquito, remoção de criadouros, aplicação de inseticidas e encaminhamento de pacientes.
A população, por sua vez, precisa redobrar a atenção e voltar a fazer a sua parte. Os procedimentos são conhecidos por todos, mas nunca é demais reforçar: manter as lixeiras tampadas com sacos plásticos bem fechados; guardar os pneus secos em locais cobertos; eliminar a água de garrafas, frascos, potes, latas vazias e baldes descartáveis e virar os recipientes com a boca para baixo; lavar e trocar periodicamente a água das vasilhas dos animais domésticos, bandejas de geladeiras, calhas e piscinas.
Além de cuidar da própria casa e do seu quintal, os munícipes podem -- e devem -- informar às autoridades sobre possíveis criadouros do mosquito localizados nas vizinhanças ou em locais por onde transitam. É possível contribuir com a saúde pública sem se identificar por meio do telefone gratuito 156 ou pelo site da Prefeitura (www.sorocaba.sp.gov.br). A queixa ainda pode ser realizada nas Casas do Cidadão e pelo WhatsApp da Ouvidoria Geral do Município, pelo número 99129-2426, das 8h às 17h.
A mensagem é a mesma de sempre: onde tem água parada, pode ter larvas do inseto.