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Editorial

O relevante papel do Brasil

Centro de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias baseadas no etanol e em outros biocombustíveis mostra que País será plataforma para mercados emergentes

14 de Julho de 2021 às 00:01
Cruzeiro do Sul [email protected]
Tecnologia em combustíveis
Tecnologia em combustíveis (Crédito: FÁBIO ROGÉRIO)

Importante decisão de uma multinacional do mercado automobilístico acaba de colocar o Brasil em evidência e comprovar que, apesar de tantas adversidades -- incluindo aí a pandemia que assolou todo o planeta -- e das constantes críticas, o País segue com enorme potencial de exercer protagonismo em diversos segmentos.

A Volkswagen anunciou a criação, aqui no Brasil, de um novo centro de pesquisa e desenvolvimento voltado a buscar saídas tecnológicas baseadas no etanol e em outros biocombustíveis.

Destinado a criar soluções de energia limpa para carros a combustão convencionais e híbridos, o novo centro deverá, portanto, exercer papel de referência. Ele irá agregar todos os agentes da cadeia, como governos, universidades e órgãos de pesquisas. Para isso, terá atuação totalmente independente do conglomerado global da marca alemã no desenvolvimento dessas tecnologias que podem, inclusive, ser adotadas em outros mercados. Ou seja, o Brasil poderá se transformar em plataforma exportadora de conhecimento para essa transição da indústria.

Não por acaso, o anúncio do novo centro aconteceu dias depois de a montadora inserir no aplicativo de seus veículos uma calculadora ambiental que aponta os ganhos de menor emissão de carbono quando o consumidor adota o etanol hidratado. Desde sempre os usuários e proprietários de veículos flex discutem a partir de qual momento passa a compensar o uso desse ou daquele combustível. Porém, até então, nunca havia entrado nessa equação a questão da sustentabilidade. Para comparação, um litro de etanol representa 70% da densidade energética da gasolina, portanto libera o equivalente a 70% da energia do concorrente. Ou seja, o etanol polui menos do que a gasolina.

Como se sabe, a indústria automobilística mundial vem atuando fortemente no desenvolvimento de carros elétricos, em uma estratégia que tem como objetivo a energia limpa. Mas a questão deve ter rumos distintos, dependendo do país. Nos principais mercados, essa guinada para os elétricos está a pleno vapor, com prazos e metas estabelecidos e muitos modelos “puro sangue” -- exclusivamente elétricos -- já rodando nas ruas. Primeira montadora a aderir ao Acordo de Paris, sobre o clima, a Volkswagen, por exemplo, pretende se tornar neutra em termos de emissões de carbono até 2050. O grupo planeja eliminar gradualmente a produção de veículos a combustão na Europa entre 2033 e 2035, um pouco mais tarde nos Estados Unidos e China. Outras montadoras também atuam com prazos semelhantes.

Contudo, nos países emergentes, grupo no qual o Brasil está incluído, ainda se discute como será essa transformação. Afinal, são situações sócio-econômicas distintas e que impactam diretamente na forma como essa adoção dos veículos elétricos irá acontecer. Por conta de uma série de fatores como limitações do nível de renda local, indisponibilidade de infraestrutura de carregamento e oferta de energia renovável, já é consenso que, nesses países, será necessário o desenvolvimento de soluções alternativas ao carro elétrico, ao menos em um período de transição energética. Muito provavelmente será adotado algo mais adaptado à realidade local e que ao mesmo tempo não impeça o avanço gradual da eletrificação. Ou seja, nos mercados emergentes, como o Brasil, a transição para a mobilidade totalmente elétrica pode demorar mais.

Dessa forma, é necessário explorar opções alternativas aproveitando os recursos locais que já estão disponíveis hoje. É nesse sentido que está sendo criado o centro de desenvolvimento. O uso de biocombustíveis é uma estratégia complementar para ajudar a indústria em mercados emergentes a neutralizar as emissões de carbono. No Brasil, vários fatores indicam o uso, por exemplo, do etanol. E aqui entra o reconhecimento da força da agroindústria brasileira.

Segundo estudo publicado pelo World Wildlife Fund (WWF), até 2030 os biocombustíveis podem suprir 72% da demanda brasileira de combustível apenas pela otimização das pastagens degradadas atualmente sem competir com a terra necessária para a produção de alimentos. Atualmente, apenas 1,2% do território brasileiro é utilizado para o cultivo de cana-de-açúcar, com 0,8% para produção de etanol (cana e milho). Quase 92% da produção de cana-de-açúcar é colhida no Centro-Sul do Brasil, e os 8% restantes são cultivados na região Nordeste. Portanto, bem longe da Amazônia e sem correr riscos de desmatamento.

Assim, ao ser colocado na posição de desenvolver e exportar soluções tecnológicas a partir do uso da energia limpa dos biocombustíveis, o Brasil recebe reconhecimento do importante papel que pode representar no avanço da mobilidade de forma sustentável e limpa. Que desempenhe bem o seu papel.