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Editorial

Lixo: reciclar mais é preciso e possível

Ainda reciclamos pouco e gastamos muito com descarte de lixo domiciliar. Já passou da hora de inverter essa equação com melhores práticas e gestão competente

11 de Maio de 2021 às 00:01
Cruzeiro do Sul [email protected]
Cooperativas têm como meta reciclar 750 toneladas de lixo por mês, atualmente são 250 toneladas mensais. Crédito da foto: Vinícius Fonseca (5/6/2020)
Vinícius Fonseca (5/6/2020) (Crédito: Vinícius Fonseca (5/6/2020))

Matéria publicada na edição de domingo deste Cruzeiro do Sul, do repórter Marcel Scinocca, mostra que Sorocaba gastou pouco mais de R$ 140 milhões nos últimos oito anos para a destinação final dos resíduos sólidos domiciliares produzidos na cidade. Os dados estão em um levantamento realizado a partir de informações públicas disponíveis no Portal da Transparência da Prefeitura de Sorocaba. Para se ter uma ideia do volume de lixo produzido pelo município, mais de 500 toneladas são enviadas diariamente para um aterro privado na cidade de Iperó. Do levantamento, dois pontos chamam à atenção.

O primeiro é em relação aos valores, que levam em consideração apenas os pagamentos feitos a partir de 2013. No total, foram gastos R$ 140.843.765,61 no período. Nesse montante não estão inclusos a coleta e o transporte dos resíduos até Iperó nem mais R$ 10.461.012,83 referentes ao lixo hospitalar coletado da rede pública da cidade. Mesmo sem esses gastos extras, dá uma média de R$ 17,6 milhões por ano somente com o trabalho de descarte. O maior gasto ocorreu em 2019, com R$ 27.844.781,68. Neste ano de 2021, por exemplo, já foram pagos R$ 3.868.644,30. Segundo a Secretaria de Serviços Públicos e Obras (Serpo), a disposição final de resíduos sólidos domiciliares e comerciais no Aterro Sanitário de Iperó ocorre por meio do contrato com a empresa vencedora de concorrência pública feita em 2019. A coleta seletiva é realizada por meio da Coopereso e Coreso, cooperativas de reciclagem que mantêm acordo com a Prefeitura de Sorocaba.

Pois bem, estamos falando de uma média de R$ 1,5 milhão por mês. Os valores parecem altos, claro, mas aqui vai um pequeno alento: segundo especialistas, o preço pago por Sorocaba não está caro e nem barato, e sim na média do mercado.

O segundo ponto -- até mais importante do que o financeiro -- é o porcentual de reciclagem do total produzido na cidade, de apenas 2%. Além de baixo, esse índice representa uma piora de 33% em relação a 2019, que era 3%.

Em média, são encaminhadas 552,7 toneladas de resíduos ao aterro, por dia -- aumento de 10% se comparado a 2019. A Prefeitura argumenta que tem ampliado a coleta seletiva por meio de PEVs (Pontos de Entrega Voluntária) em áreas públicas, como parques, praças e escolas, bem como em Ecopontos. Mas isso é pouco diante das inúmeras possibilidades que podem ser feitas em relação ao lixo reciclado. Países ou cidades que já perceberam isso que o digam. Várias delas, inclusive, possuem campanhas de Lixo Zero pois sabem da importância do tema. De umas décadas para cá, o lixo virou um produto. Se bem trabalhado, pode representar não apenas uma enorme economia na questão do descarte como até gerar lucro com sua reciclagem e reutilização. Lixo orgânico, por exemplo, pode ser transformado em energia.

Na matéria, o especialista Sandro Donnini Mancini, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), explica que é preciso haver um conjunto de ações para melhorar esse quadro, e que a principal delas é investimento. Evidentemente que o primeiro passo é um maior comprometimento da população, mas é necessário novas tecnologias de coleta, de separação, de reciclagem, de compostagem, de tratamento. Tudo isso é considerado melhor que o aterramento -- é o que se chama de hierarquia de gestão de resíduos sólidos.

Apesar de ter de se espelhar em países e cidades que são modelo na reciclagem de lixo, o Brasil precisa encaixar nessa equação um componente diferente e local: os catadores. De acordo com Mancini, eles têm que ser incluídos nesse planejamento e serem beneficiados por esses investimentos e tecnologias. Portanto, uma opção seria uma junção do que existe no exterior com a realidade brasileira.
Mas nem tudo é notícia ruim. Um fato positivo é que Iperó tem um dos melhores aterros do Brasil, segundo levantamento anual da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). E segundo Mancini, “aterro é muito melhor do que lixão em termos ambientais. Lixão é algo criminoso, aterro é legal”.

Enfim, está claro que cada vez mais se faz necessário um ação conjunta e integrada entre poder público, iniciativa privada e principalmente a população. É preciso ter como objetivo o Lixo Zero. Só assim será possível avançar na questão, envolvendo todas as partes. Inclusive com a adoção da educação ambiental, para poder ensinar e orientar a população -- sobretudo as crianças -- sobre a importância do tema do lixo e suas infinitas possibilidades. É preciso haver uma mudança de cultura e do modo de pensar. A educação ambiental deve começar nas salas de aula, por exemplo. Só assim vamos modificar esse panorama e trazer soluções mais sustentáveis.