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Se ama a sua mãe, beije-a com os olhos

Hoje, a maior demonstração de afeto às mamães é preservar a vida delas e, evidentemente, a saúde dos filhos delas

09 de Maio de 2021 às 00:01
Cruzeiro do Sul [email protected]
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Muito embora, pelo segundo ano consecutivo e pelos mesmos motivos, neste domingo estejamos todos -- filhos e filhas -- obrigados a, novamente, refrear as homenagens às nossas queridas mãezinhas, testemunhamos a chegada deste dia tão especial sob o alento da esperança renovada. Finalmente, após meses a fio de luto e inquietação para milhões de famílias espalhadas pelos quatro cantos do planeta, começamos a vencer batalhas importantes na guerra contra o implacável novo coronavírus. Provavelmente, a ameaça ainda demore um pouco para se dissipar significativamente, porém os trunfos já conquistados e a determinação daqueles que estão na linha de frente -- dos cientistas aos profissionais da saúde -- permitem vislumbrar o fim da devastação fomentada pela Covid-19. Quanto à data em que comemoraremos a vitória final, no próximo Dia das Mães ou nos seguintes, vai depender do grau de discernimento demonstrado no dia a dia pela maioria dos cidadãos.

Bons resultados, até que em fim, abrem espaço para o otimismo sensato. Além das diferentes vacinas -- armas básicas para evitar as infecções -- já em pleno uso e de inúmeras outras em fase de testes, começam a ser apresentados também medicamentos que podem vir a ser capazes de ajudar no tratamento das pessoas já acometidas ou, até, de prevenir o contágio -- os chamados tratamentos precoces. Ainda no campo das promessas, muitas dessas alternativas carecem de comprovação, mas não deixam de ser possibilidades de colocar mais luz no fim do túnel. O Instituto Butantan, por exemplo, experimenta no município de Araraquara (SP) o uso do plasma, um dos componentes do sangue, de pessoas que já tiveram Covid-19 para ajudar no tratamento de pacientes que estão com a doença. Apenas para citar mais uma possibilidade, a farmacêutica norte-americana Astrazeneca, por sua vez, promete para os próximos meses a disponibilização do AZD7442, fórmula anunciada como um preventivo à Covid.

No campo dos fatos, um estudo realizado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul, e divulgado na última semana, mostra que caiu pela metade a proporção de mortes de idosos com 80 anos ou mais no Brasil após o início da vacinação. Conforme os dados tabulados pela instituição, a taxa de mortalidade nesta faixa etária era de 25% a 30% em 2020 e passou para 13% no final de abril deste ano. Quando a vacinação começou, em janeiro de 2021, o percentual era de 28%. Segundo os responsáveis pelo estudo, os dados confirmam evidências já observadas em outros países, como Israel, mas a novidade é que, pela primeira vez, foi verificada queda de internações e mortes em um cenário com predominância da variante P1. Vale lembrar que essa nova cepa, descoberta no início deste ano em Manaus (AM), é superior em letalidade -- até 2,4 vezes mais transmissível do que outras linhagens do coronavírus -- e responde pela maior parte dos casos atuais no Brasil. Apesar disso, pelo menos 13,8 mil mortes de brasileiros com 80 anos ou mais foram evitadas em um intervalo de oito semanas.

Outro motivo para comemorações é a redução das fatalidades entre os profissionais de saúde, como médicos e enfermeiros, que atuam na linha de frente do combate à Covid-19. Segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM), houve uma queda de 83% no número de médicos mortos em março, na comparação com janeiro, quando grande parte deles foi imunizada. No primeiro mês de 2021, 59 profissionais morreram no País. Em fevereiro, o número caiu para 24 e, em março, se reduziu a 10. Resultado positivo foi registrado também entre enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem. O número de óbitos nesse grupo caiu 71% de março, quando 83 profissionais morreram, a abril, mês em que foram registrados 24 óbitos.

As primeiras vitórias contra o SARS-Cov-19 no Brasil incluem ainda o resguardo de uma das populações mais vulneráveis: os indígenas. Incluídos entre os primeiros vacinados no País, de janeiro a março, os óbitos nesse grupo caíram 66% em Mato Grosso do Sul, segundo dados oficiais. Foram nove mortes em janeiro contra três em março. O pico ocorreu em agosto do ano passado, quando 38 indígenas morreram de Covid-19. Tendência semelhante foi registrada em Estados como Ceará e Minas Gerais.

Lamentavelmente, o novo coronavírus tem se mostrando um dos inimigos mais poderosos já enfrentados pela humanidade. Resistente ao extremo, ardilosa e cheia de surpresas, a Covid aproveita todas as oportunidades para ganhar força e resistência. Para desespero dos cientistas que trabalham na produção de vacinas e remédios, as próprias pessoas têm aberto a guarda e proporcionado as brechas que o oponente necessita. A boa notícia é que a mudança de atitude para quem ainda não se conscientizou sobre a relevância de seguir os protocolos sanitários definidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e adotados em todos os países pode começar hoje mesmo. Contabilizando prós e contras, o bom senso nos aconselha a demonstrar o nosso amor àquela que nos deu a vida fazendo justamente o inverso daquilo que o nosso coração mais anseia: não, abraçá-la, não acariciá-la, não beijá-la, não chegar a menos de um metro e meio dela. Ao contrário disso, a ternura que sentimos por ela, a vontade de tê-la durante o máximo de tempo possível -- assim como o anseio de que ela também nos tenha sempre ao seu lado -- exigem que a mantenhamos a salvo do vírus que podem estar carregando neste exato momento sem quem tenhamos conhecimento e/ou nem apresentemos sintomas. Hoje, a maior demonstração de afeto às mães é preservar a vida delas e, evidentemente, a saúde dos filhos delas.

Isso não significa abrir mão das homenagens, das manifestações de afeto, do agradecimento por tudo o que as mães fizeram por nós mesmo antes de virmos ao mundo. Podemos -- e devemos -- homenageá-las neste segundo domingo de maio. A tecnologia nos permite fazer isso de maneira remota, utilizando mensagens por meio das redes sociais, videochamadas, serviços de entregas para envio de presentes, uma cesta de café da manhã e, até, um almoço. Porém quem não puder evitar ou resistir à vontade de prestar a homenagem pessoalmente, deve respeitar todos os protocolos sanitários: uso de máscara, distância mínima de 1,5 metro, higienização das mãos, maçanetas, corrimãos, embalagens de presentes etc.. Beijos, abraços e carícias... só com os olhos e em pensamento!

Todo os sacrifícios que filhos e filhas praticarem neste Dia das Mães serão recompensados à altura. Hoje, o distanciamento social será vital para salvaguardar as vitórias obtidas até o momento na luta contra a pandemia, impedindo que sejamos obrigados a retroceder passos importantes, assim como evitar a retomada do aumento de casos com a consequente sobrecarga dos hospitais. Lembremos que esse tem sido o cenário recorrente logo após as comemorações recentes e os períodos de afrouxamentos das restrições.