Do leitor

Feira da Barganha

Tenho acompanhado as últimas reportagens e editoriais do Cruzeiro do Sul referentes a Feira da Barganha. Nessas quatro décadas de existência, infelizmente, tenho lido mais críticas do que elogios, com certa razão, especialmente devido ausência do Estado.

Vale lembrar que a Feira da Barganha foi idealizada por mim, em 1977, quando Theodoro Mendes iniciou sua administração municipal com um grupo de secretários e técnicos jovens, idealistas e bastante competentes. De fato Marins era o Secretário da Educação e Saúde, onde eu era um dos dois Chefes de Divisão existentes, cuidando da rede pré-escolar (na época 13 escolas…), com a responsabilidade de implantar o Plano Setorial de Lazer na cidade, o qual viria a ser um dos primeiros no país. Concebido com aquilo de mais atualizado na época, adotamos o modelo “Demanda/Oferta”, buscando atender os mais distintos segmentos da população dentro dos variados conteúdos culturais do lazer (na época, o “pai da sociologia do lazer”, o francês Joffre Dumazedier, era a principal referência conceitual).

Dentro de todo espectro dessas duas variáveis, tínhamos dificuldades de encontrar algo que poderia despertar o interesse de adultos de média/baixa renda no campo dos conteúdos culturais sociais do lazer. Observando especialmente o que ocorria no Largo do Relógio do Mercado Municipal, constatamos a existência de um grupo considerável de adultos (predominantemente homens) que trocavam objetos, particularmente relógios e bicicletas…
Elaboramos o projeto Feira da Barganha e fomos buscar o auxílio do radialista Nhô Juca, que abraçou a ideia.

Assim começou a Feira da Barganha, em local limpo, demarcado, organizado, preparado e SUPERVISIONADO por técnicos de Recreação e Lazer da Prefeitura.

Desde a primeira edição, ficava claro que íamos enfrentar dois desafios: crescimento do interesses genuíno pela experiência e uma minoria que tentava comercializar produtos novos. No entanto, o que mantinha a regularidade e o interesse da população era um forte programa de orientação e animação sociocultural no local e o início da formação do embrião que viria a ser a “Comissão de Barganheiros”, para que eles próprios criassem mecanismos de controle.

O descaso do poder público, preferindo mudar a atividade de local (cada vez mais escondido), assumindo o caminho da punição (poder de polícia) e não de educação (por técnicos da Prefeitura), levou essa extraordinária possibilidade de desenvolvimento sociocultural de adultos de baixa renda a ser tratada como “receptadores de objetos roubados”.

Portanto, fica mesmo mais fácil acabar com a Feira da Barganha, jogando a água suja com a criança junto!

ANTONIO CARLOS BRAMANTE

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