Editorial Opinião

Desonestidade em torno da vacina

Vacinação ilegal em Minas Gerais, roubos de vacinas à mão armada, golpes e falcatruas

Enquanto a campanha de vacinação contra a Covid-19 no Brasil avança em ritmo lento, aquém do desejado — e do que seria preciso para atenuar a pandemia, o que avança em ritmo acelerado são os casos e denúncias de vacinações clandestinas, roubos de vacina à mão armada, imunizações falsas, golpes e vendas fraudulentas.

Tais situações, infelizmente, revelam algumas das piores facetas do ser humano. Gente que acha que pode passar por cima das regras e da lei, e que acha que dinheiro pode comprar tudo, além de golpistas, malandros e até criminosos.

Em relação à vacinação ilegal, o caso mais emblemático vem de Belo Horizonte, onde um grupo de políticos e empresários mineiros foi flagrado sendo vacinados de forma supostamente irregular.

A ação ocorreu em uma garagem de uma empresa do segmento de transporte rodoviário de passageiros. O grupo seria formado por cerca de 50 pessoas, entre políticos, empresários do setor de transportes e seus familiares.

Eles teriam recebido a primeira dose no dia 23 de março e contavam em receber a segunda depois, pagando por isso o valor de R$ 600 por pessoa.

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A Polícia Federal (PF) segue investigando o caso, e as últimas informações podem transformar os “espertalhões” em verdadeiros “bobalhões”. Isso porque, de acordo com as apurações, é grande a chance desse grupo ter recebido soro no lugar de vacina.

A operação policial, que teve início com o objetivo de averiguar suposta importação e administração irregular de vacinas, encontrou uma quantidade considerável de soro em posse da mulher que teria aplicado as doses no grupo. Ou seja, eles podem ter pago para fazer algo irregular e acabaram enganados.

E não são só eles. Muita gente acaba caindo em golpes em torno da vacinação. Em um dos golpes, que circula em aplicativos de mensagens, oferecem imunização em troca de dinheiro, claro.

Antes de tudo, é preciso saber que não é nada fácil obter as vacinas. O Congresso autorizou a importação pela iniciativa privada, mas até que o governo imunize todos os grupos prioritários (cerca de 77 milhões de pessoas), todas as doses importadas devem ser doadas ao Ministério da Saúde.

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Uma vez que os grupos de risco estejam vacinados, as empresas ainda assim devem ceder metade de suas compras ao poder público.

Enquanto o governo federal aguarda para abril o início da chegada de 100 milhões de doses da Pfizer, já aprovadas pela Anvisa, órgão regulador de saúde no país, o Brasil segue vacinando somente com dois tipos de imunizantes, a chinesa Coronavac e a Astrazeneca, de um consórcio sueco-britânico.

Até o momento, cerca de 6% dos 212 milhões de brasileiros receberam a primeira dose e apenas 2% já estão totalmente imunizados.

Ao redor das vacinas, há também os criminosos assumidos. Já foram registrados ao menos dois assaltos à mão armada. Em Natal, homens portando metralhadoras ameaçaram enfermeiras em um posto de saúde e levaram 20 doses da Coronavac. Alguns dias depois, uma cena semelhante foi registrada em São Paulo, onde os agressores roubaram uma centena de vacinas.

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A Polícia Federal também investiga um grupo suspeito de oferecer, fraudulentamente, ao Ministério da Saúde cerca de 200 milhões de doses de vacinas contra a Covid, em nome de um grande consórcio farmacêutico.

Por fim, até mesmo profissionais de saúde são suspeitos de irregularidades. Alguns deles foram flagrados em vídeos, apenas fingindo aplicar o imunizante em idosos e não empurrando o êmbolo até o final. Alguns casos estão sendo investigados pelas autoridades e não se sabe o motivo dessas ocorrências.

Enfim, não bastassem os problemas que a população já enfrenta diariamente com a pandemia, como risco de contágio e dificuldades financeiras decorrentes da redução da atividade econômica, ainda somos obrigados a conviver com todas essas bizarras situações.

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