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Você pode ser um nomofóbico e nem saber disso

Nomofobia significa fobia causada pelo desconforto ou angústia resultante da incapacidade de ter acesso à comunicação

Os nomofóbicos nunca levantam a cabeça estão sempre olhando para a palma da mão. À mesa, invariavelmente espetam o bife com o celular e atendem chamadas com o garfo

Nomofóbico. Provavelmente neste momento o leitor está correndo para os sites de busca para saber o que significa isso? Ou pior, quem foi que deixou vazar essa sua informação íntima de ser nomofóbico para as redes?

Calma!

Nomofobia foi um termo criado pelos ingleses por volta do início do ano 2000. Significa a fobia causada pelo desconforto ou angústia resultante da incapacidade de ter acesso à comunicação através de aparelhos celulares ou computadores. Cerca de 76% dos jovens britânicos entre 18 e 24 anos sofrem do mal. O Brasil tem 120 milhões de usuários de internet, o quarto maior volume do mundo, atrás de Estados Unidos, Índia e China, mostra relatório da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). Em 2016, o país foi considerado o segundo que mais usa o WhatsApp, segundo levantamento do Mobile Ecosystem Forum (MEF).

O nomofóbico é o sujeito que, quando você pede para ele fechar a janela, ele procura o mouse; não dorme, faz logon. Não começa o dia, reinicializa. Não memoriza, arquiva, não se reinventa, faz back-up. Quando viaja carrega a bagagem num pen-drive e, se descobre que o seu computador está com vírus, compra preservativo para o mouse.

— Carlucho, posso falar uma coisa urgente com você!

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— Tudo bem Jovair, me mande uma whatzapp que eu estou no meio de uma reunião.

— Pra quê, Jovair? eu estou aqui do seu lado!

— É você mesmo?! Tem certeza?

— Claro que sou eu, Jovair, quem mais?

— Não estou vendo o cadeadinho de segurança em você. Qual o seu https://?

— Jovair, sou eu o Carlucho! Seu colega de trabalho, de pelada nos fins de semana. Tá me confundindo?

— Prove que você não é um robot. Desenhe estas letras.

— Ficou maluco Jovair, sou eu, seu amigo Carlucho. Você está viciado demais nesse negócio de computador, internet e sei lá que mais!

— Segurança! Há muitos robôs enviando mensagens falsas. Digita aí: Eu não sou uma máquina e repete as letras.

— Eu não acredito, você está me tratando como seu eu fosse uma máquina. Sou eu o Carlucho!

— Digite a senha, com seis algarismos e pelo menos uma letra.

— Jovair! Tu ficaste maluco?

— Serve código de barra. Se esqueceu a senha, pode enviar pelo seu e-mail.

— Você está falando comigo como se eu fosse um…, um software qualquer… Um programa pirateado! Você vai acabar deletando nossa amizade!

— Nem me fale nisso…. Na semana passada roubaram o computador… Consegui recuperá-lo, mas foi tarde demais, deixaram-no lá, sozinho, trancado nalguma sala escura sem uma fonte de energia, nem um estabilizador de voltagem! Como alguém pode fazer isso? Você precisava ver a luzinha stand-by dele quando eu o recuperei…. ficando cada vez mais fraquinha… pegou um vírus… sem cura… Eu segurei o mouse dele até o último minuto, foi muito triste… programador disse umas palavras tão bonitas na hora… Desculpe acho que entrou um cisco no meu olho…

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— Você está chorando por um computador?

— Computador não! Inteligência artificial! Uma parte de mim! Quem sou eu? Quem é você sem esses seres iluminados? Se o que você chama de computadores eu chamo de nossos irmãos, o mundo para: telefone, bancos, carros, trens, energia, bancos, pipoqueiras, máquinas de café… É como se uma parte de mim tivesse sido deletada com ele! E depois, como não posso me emocionar destruíram logo a placa mãe dele!

— A placa mãe?! Agora pegou pesado. Tudo bem, Jovair, vou respeitar o seu luto. Nós podemos conversar fora daqui?

— Desculpe, mas não estou bem, preciso de um software novo, você converse com outro amigo.

— E como faço isso?

— Procure no Google.

Poucos anos após o surgimento da Internet, começaram os primeiros estudos sobre dependência do meio virtual segundo Gustavo Malafaya Sá — Universidade de Lisboa – 2012. Quase 68% das pessoas entre 25 e 34 anos são vítimas desse medo. As pessoas idosas que se encontram entre 55 e acima também sofrem desta fobia. Alguns sinais da dependência, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) 2018, são:

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1 – Acordar a cada duas horas à noite apenas para verificar o seu telefone.

2 – Verificar o telefone o tempo todo, mesmo almoçando ou jantando.

3 – Entrar em pânico se o telefone está ficando sem bateria.

4 – Sente que está perdendo a vida quando não há sinal no seu telefone.

5 – Tem vontade de atender seu telefone, não importa o quão ocupado esteja.

6 – Leva seu telefone até o banheiro.

7 – Você verificou seu telefone duas vezes ao ler este artigo.

Se você é uma dessas pessoas e estiver sozinho ligue o monitor mais próximo de você, agarre um celular, ajoelhe-se e reze um pen-drive de 12 Gigabytes que passa.

Os nomofóbicos são facilmente reconhecidos em qualquer lugar, nunca levantam a cabeça estão sempre olhando para a palma da mão, nunca para o interlocutor. À mesa, invariavelmente espetam o bife com o celular e atendem chamadas com o garfo. Não é possível distinguir quem é quem, se desligar um deles, outro perde a função existencial e vice-versa. Os viciados em celular são crentes fanáticos, religião à espera da salvação, pois primeiro veio o Ipad, depois o Iphone e agora eles aguardam a vinda do IGod!

José Feliciano – Redator de humor e mistério — médico de em modo de espera.

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