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Viver na ponte

Artigo escrito por Leandro Karnal, historiador e escreve para a Agência Estado
Viver na ponte
Crédito da foto: Divulgação

Leandro Karnal

Este ano será memorável, daqueles que gerações debaterão. A maioria de nós foi afetada diretamente pela pandemia. Pela doença em si ou pela crise que adveio das drásticas mudanças de vida, consumo e sociabilidade que tivemos de adotar para contê-la. Em meio ao pandemônio, houve momentos em que, humano que sou, preenchi-me de esperança, de uma certeza de que tudo passaria, que havia chance de sermos regenerados pelo trauma coletivo. Em dias assim, fluía o exercício físico, o trabalho doméstico e o formal, lia e escrevia muito. Apenas para, no dia seguinte, acordar mais pesaroso, ler os jornais e me desesperar com uma notícia mais ou menos temida, e andar pelo apartamento com pesos nos pés e na alma. Tinha certeza de que o mundo era assim, como na Peste de Camus. O mal está em nós ainda que nos livrássemos do coronavírus. Desesperado, ainda assim, tinha de trabalhar, mas o gosto era menor. A frase de Kafka em conversa célebre me martelava: “Há esperança suficiente, infinita — mas não para nós”. Em dias assim, lia compulsivamente e escrevia ainda mais. Muito do que a tela do meu computador viu surgir em dias de esperança e desespero nunca verá os olhos de outro leitor que não os meus.

Chico Buarque escreveu Pedro Pedreiro e explorou a ideia de que esperança e desesperar têm a ver com o radical esperar. Quem espera algo ou se frustra ou se locupleta. O Pedro da canção termina “esperando enfim nada mais que além / que a esperança aflita, bendita, infinita do apito do trem”, que o levaria para longe, de volta ao passado, para um sonho de vida melhor, ou simplesmente para casa depois de mais um dia de trabalho. Talvez seja condição humana, logo, como viver sem esperar? Como não se desesperar por vezes e não se curvar com a frustração; ou não sentir a esperança lufar como vento em vela de navio, enchendo o peito de confiança?

Os franceses costumavam dizer que “tudo passa, satura, quebra e. . é trocado” (Tout passe, tout lasse, tout casse et tout se remplace). Ou seja, a transitoriedade é a tônica de nossa existência. Nada durará para sempre, o problema incontornável de hoje será esquecido ou se apequenará diante do desafio de amanhã. A alegria passará pelo mesmo efeito. Isso não é maldição, mas bênção. Imaginem se uma tragédia se eternizasse?

Ou se uma felicidade fosse perene? Como apreciar a felicidade se ela fosse imorredoura? Como ter perspectiva na crise se ela fosse imutável? Ou seja, La Rochefoucauld não estava equivocado em nos lembrar de que a desesperança é uma gêmea siamesa da expectativa, do otimismo. Tampouco a Bíblia deixou passar essa constatação e o Eclesiastes (9,4) registra: “Ora, para aquele que está entre os vivos há esperança (porque melhor é o cão vivo do que o leão morto)”. O mesmo texto atribuído ao rei Salomão afirma uma espécie de solução logo adiante: “Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias da tua vida vã, os quais Deus te deu debaixo do sol, todos os dias da tua vaidade; porque esta é a tua porção nesta vida, e no teu trabalho, que tu fizeste debaixo do sol”. Trata-se de um otimismo realista, de uma virtude de consciência do fim e de necessidade de vivenciar as coisas boas por enquanto. O autor parece ter lido o “jogo do contente de Poliana” e Schopenhauer em igual proporção. É um Pangloss melancólico.

Ora, se tudo passa, aproveite enquanto não passa. Se tudo cansará ou quebrará, retomando o ditado francófono, vamos viver agora. Por fim, enquanto não sou substituído, vivo as alegrias da função.

O desafio está na literatura e na filosofia. Encontramos em existencialistas e nos escritores sagrados. O mesmo e velho debate que irei sintetizar. Os dramas se repetem para sempre. Sobreviveu à epidemia atual? Outra lhe aguarda. Resolveu a questão econômica no momento atual? O vazamento financeiro encontrará outro ponto frágil no dique da sua resolução. Um filho foi bem agora

Outro trará uma péssima notícia. São esses caminhos que nos irmanam com Macbeth e a vida se torna cheia de som e de fúria e sem significado. Tal seria o polo pessimista. O outro é das pessoas, por vezes irritantes, que despertam sempre felizes, saudando o sol (ou o dia chuvoso) e sempre observam só o lado bom. Ao entrar no escritório, assemelham-se a um trio elétrico no circuito Barra-Ondina de Salvador. Só alegria! Só purpurina! Tudo é radioso! Tal como os urubus pessimistas, os pavões otimistas conseguem ser chatos.

O bom caminho poderia ser um otimismo realista, aquele indicado pela Bíblia. As coisas podem estar ruins e devem ser levadas em conta. A consciência da finitude deve provocar desapego e não dor, pois o apego ao impossível eterno de tudo só faz sangrar a pele frágil do otimista. Talvez nem tanto desapego como estimulavam estoicos, quase seres fora do mundo em que vivemos. Porém, aceitar um pouco da oscilação como inevitável, e manter a serena alegria em dias bons e a sabedoria tranquila em dias piores. Sem oscilações inteiramente dependentes do que ocorre e sem desligamento do real. Entre os dois polos, temos música, temos amores, temos arte e literatura e, eventualmente, vinho. São divinas pontes para que não caiamos na tentação de obter cidadania permanente na ilha da depressão ou na da euforia. Nenhuma é nossa, de fato. Somos cidadãos da ponte, sempre. Com a realista esperança infinita, sujeitos ao carnaval (no máximo um por ano) e alguma furtiva lágrima. Boa semana aos cidadãos da ponte.

Leandro Karnal é historiador e escreve para a Agência Estado.

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