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Veja o que o open banking poderá ser para você

Artigo escrito por Celso Ming, jornalista da Agência Estado, especializado em economia
Crédito da foto: Marcos Santos / USP Imagens

 

Celso Ming

Vem aí o open banking (banco aberto, em tradução livre), que pode mudar muita coisa no relacionamento entre bancos e clientes.

Leva o nome oficial de Sistema Financeiro Aberto e deve ser adotado em etapas pelo Banco Central (BC), com previsão para ser iniciado no segundo semestre deste ano, se tudo seguir o cronograma proposto. Alcançará não só bancos comerciais, mas também as fintechs (startups financeiras), demais instituições financeiras e, consequentemente, qualquer cliente do setor.

Hoje, são os bancos que detêm as informações sobre a vida financeira dos seus correntistas, como extratos, capacidade de honrar contratos e prazos de pagamento, perfil de investimento e certos hábitos de consumo. Essa é a principal razão pela qual é trabalhoso trocar de banco. Implica reconstruir laços de relacionamento com uma instituição que nada ou pouco sabe sobre o novo cliente. Muitas vezes, por puro medo de apostar no cavalo errado, a nova instituição não se dispõe a oferecer as melhores condições nos empréstimos, nas renegociações de dívidas e na prestação de serviços.

Além de aumentar a concorrência entre instituições financeiras, o open banking tem por objetivo facilitar o trânsito financeiro. O modelo força as instituições bancárias a abrir para os concorrentes as informações dos seus clientes — com o consentimento deles e sob as condições da Lei Geral de Proteção de Dados, sancionada em 2018: “O open banking reconhece o direito do cliente ao acesso às suas próprias informações financeiras e ao compartilhamento desses dados com quem quiser”, explica o especialista em serviços financeiros da Deloitte, Sergio Biagini. Ou seja, a informação é do usuário, e não da empresa.

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Com isso, qualquer correntista pode compartilhar seu histórico bancário com outros bancos, comparar condições de produtos e serviços financeiros e optar pelo banco que melhor o sirva. As fintechs poderão, assim, ampliar sua atuação e cobrir áreas ignoradas pelos players tradicionais. “Isso abre novo leque de modelos de negócios”, diz Biagini.

Por exemplo, um único aplicativo poderá realizar operações com meia dúzia de bancos, conferir extratos em várias contas correntes, bem como comparar as condições de investimentos em diferentes corretoras. Tudo por meio de um único serviço, de forma fácil, amigável e intuitiva, sem ter de lidar com tantos aplicativos diferentes, como ocorre atualmente.

Há quem afirme que o acirramento da concorrência derrubará os negócios dos grandes bancos, o que parece improvável. Isso é como acontece naquelas ruas que concentram lojas do mesmo tipo de negócio, como iluminação e material elétrico na rua da Consolação ou produtos eletrônicos na rua Santa Ifigênia, ambas em São Paulo. Há aí, sim, reforço da concorrência, mas a concentração geográfica também atrai muito mais clientela.

“O open banking veio para retirar as fronteiras entre as instituições financeiras”, observa o gerente executivo de Negócios Digitais do Banco do Brasil, Daniel Regis Filho. Ele entende que os bancos também entrarão na dança e ganharão mais competitividade.

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Embora mostrem otimismo com o início do regime, os bancos não se disporiam a abrir suas informações por vontade própria sem a atuação do regulador. Foi preciso que o Banco Central interviesse, definisse os termos do sistema e exigisse seu cumprimento por todas as instituições. “Se a adesão fosse opcional, a implantação do open banking levaria muito mais tempo”, observa o chefe do departamento de Regulação do Sistema Financeiro do Banco Central, João André Calvino Marques Pereira.

O processo pode ter suas limitações. O tempo de adaptação pode ser curto demais para que os bancos adaptem seus sistemas para operar com segurança, preparar equipes, testar procedimentos e educar o correntista a respeito das novas opções de produtos.

Para o diretor executivo de mercado de capitais da Accenture, Dênis Nakazawa, há o risco de que o público brasileiro não autorize o compartilhamento de seus dados com fintechs pouco conhecidas. Nesse sentido, parcerias com grandes marcas, como com os grandes bancos, poderiam ajudar a construir confiança. Mas o sucesso de tantos novatos que surgiram nos últimos anos indica que esse risco pode ser reduzido: “O Brasil é um dos mercados que ostentam inovação e dinamismo. Temos uma boa quantidade de unicórnios quando comparada com o tamanho do mercado”, diz. (com Guilherme Guerra)

Celso Ming é jornalista da Agência Estado, especializado em economia.

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