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Um deus entre os homens

Artigo escrito por Leandro Karnal, historiador e escritor
Um deus entre os homens
Crédito da foto: Reprodução / Internet

Leandro Karnal

Nos séculos 5.º e 4.º antes da nossa era, Atenas vivia o chamado período clássico. O Partenon brilhava, recém-construído. A Democracia existia nos moldes das reformas de Clístenes e de Péricles. O teatro dos grandes autores era gratuito para os cidadãos e os modelos da arte grega estavam definidos para uma longa carreira de influências sobre todo o Ocidente. Em meio a inquietações das Guerras Médicas, a capital da Ática estabelecia parte da nossa maneira de ver o universo.

No período clássico, os grandes filósofos associavam a participação dos cidadãos na cidade-Estado, a pólis, como parte de um exercício necessário para o bem-estar e a felicidade de todos. O bem político era parte do esforço ético. Com muitas variações, o tom dominante era o otimismo. A Razão contava com discípulos devotados e o ser humano era perfectível, ou seja, possível de ser melhorado.

Houve, então, o “suicídio grego”: Atenas tornou-se uma cidade imperialista e o custo da democracia passou a ser pago pelas cidades sob seu controle. Na sequência, engalfinhou-se numa longa guerra pela hegemonia da região com a arquirrival Esparta. Atenas perderia o conflito. Veio, na sequência, a conquista estrangeira da Grécia, enfraquecida pela Guerra do Peloponeso. Filipe da Macedônia encerrou, para sempre, a autonomia política dos helenos já enfraquecidos. Alexandre Magno, seu filho, expandiu o império por sobre os persas até o começo da Índia. O período que acompanhou essa vigorosa expansão foi o Helenismo. De um modo bem geral, a arte ficou mais dramática e a filosofia mais pessimista. Sim, há notáveis exceções. Descrevo o geral.

Epicuro (342 – 270 a. C.) era um rapaz quando Aristóteles morreu. Desconfiava de qualquer poder dos deuses e julgava que a felicidade, talvez, não residisse em grandes projetos políticos, todavia, na reunião de alguns amigos seletos em um jardim. Distinguia os diversos tipos de desejo e considerava alguns necessários, outros inúteis e irrealizáveis. Seu ceticismo materialista, sua defesa da felicidade sóbria e íntima e sua desconfiança dos grandes sistemas foram de enorme influência posterior. Epicuro foi debatido por séculos e comentado por Marx e Nietzsche. Sua fórmula foi resumida no quádruplo remédio (tetrapharmakón): “Não há por que temer os deuses; a morte nada pode contra nós; o bem é fácil de alcançar; o sofrimento é fácil de suportar”.

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A Penguin/Companhia das Letras lançou, em português, algumas das obras que definiram a fama de Epicuro: “Carta a Meneceu”, “Carta a Heródoto”, “Carta a Pítocles”, “Máximas Principais” e um trecho do “Da Natureza”. É um apanhado bem escolhido para dar ao leitor um panorama sólido do filósofo da ilha de Samos. Maria Cecília Gomes dos Reis e Tim O’Keefe fazem introduções gerais muito didáticas. Em duas centenas de páginas, o leitor faz um curso de epicurismo básico: seu projeto de felicidade, sua ética e seu famoso atomismo.

É fácil entender o apelo do pensamento do filósofo em todos os momentos da História. Qual a percepção mais comum quando estamos em idade racional? O mundo amplo está corrompido. Governantes são insensíveis ou francamente estúpidos. O grosso da humanidade é egoísta e as cenas de violência e imbecilidade se multiplicam. Era a sensação nos séculos do helenismo e é hoje. Talvez, sempre tenha sido assim: o mundo é tenso e carregado de “som e fúria” e a coletividade inspira, no máximo, piedade. Em meio ao caos, o ideal é que nos agarremos ao que está mais próximo do nosso controle e mais apto a preencher nossa busca por paz e felicidade. Você pode mudar o mundo inteiro? Poucas pessoas acreditam nisso. Porém, existe um espaço menor que pode nos isolar e preservar: o círculo afetivo e prazeroso da boa amizade. O viver entre seletos seres é prudente e tranquilo, como adverte o pensador a Meneceu. Quem segue essas regras simples de uma vida sem sobressaltos, com equilíbrio, vive como “um deus entre os homens” (p. 90).

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Como sempre, a apropriação de um pensador decorre mais do que somos do que aquilo que ele diz. Epicuro foi acusado de hedonista, ou seja, de um ser voltado ao prazer extremo. Foi tomado por ateu e irreligioso, causando ira entre muitos posteriores. Por fim, pareceu alienado ao pregar uma felicidade dentro de um pequeno grupo e abandonar os grandes projetos de construção da felicidade social. Ler o texto de Epicuro é beber de uma fonte direta para perceber como os louvores e as acusações podem ser uma construção estranha a uma ideia original.

Ao terminar a leitura desta nova edição, senti como continua tentador o jardim proposto pelo grego. Duas vezes jantei no restaurante L’Epicure, do Hotel Bristol, em Paris. Há estabelecimentos com o nome dele por todo o mundo. O valor da conta parece quebrar sempre a ataraxia epicurista, ou seja, a tranquilidade e ausência de inquietações da mente. Epicuro, possivelmente, afirmaria: deixe a dor para quando vier a fatura. Aproveite o jardim e os amigos; talvez os portões do Hades se abram antes de você quitar a dívida.

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A sedução do epicurismo aumenta neste momento no Brasil. Olhando tudo que acontece, no plano quase invisível de um vírus ou na macrofísica do poder, é natural ver crescer o desejo de um jardim isolado com amigos. Bem, mesmo no seleto grupo epicurista, convém continuar de máscara. A morte é inevitável, apenas devemos lutar um pouco mais para ter mais deleites e menos demência. Afinal, podemos ser deuses no espírito, mas os pulmões ainda podem ser infeccionados. Boa semana para todos nós.

Leandro Karnal é historiador e escritor.

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